# Intoxicação Exógena

# Centro de Informação e Assistência Toxicológica (CIATox)

Os CIATOX do Brasil realizam atendimento toxicológico e estão voltados para informar e esclarecer aos serviços de saúde e à população em geral quanto aos riscos das substâncias químicas e biológicas. Os agentes envolvidos incluem agrotóxicos agrícolas ou domésticos, substâncias químicas de uso doméstico ou industrial, plantas tóxicas, animais peçonhentos, medicamentos de uso humano ou animal, drogas lícitas e ilícitas, ou qualquer outro agente potencialmente tóxico.

#### Atividades do CIATox

- Prestar informações aos profissionais no caso de urgência e emergência, auxiliando no diagnóstico e tratamento de intoxicações;
- Dar suporte aos usuários em caso de acidentes que não necessitem de atendimento nos serviços de saúde;
- Acompanhar os casos de intoxicações até a sua resolução;
- Apoiar e promover capacitaçoes sobre o tema.

#### Amazonas (AM)

- Centro de Informações Toxicológicas do Amazonas – CIT/AM 
    - Telefone Emergência: (92) 3305-4702 / 0800-722-6001
    - Telefone: (92) 3305-4702 / (92) 3305-4732

#### Bahia (BA)

- Centro de Informação e Assistência Toxicológica da Bahia– CIATox/BA 
    - Telefone Emergência: 0800-284-4343
    - Telefone: (71) 3103-4343 / (71) 3103-4300

#### Ceará (CE)

- Centro de Informação e Assistência Toxicológica do Ceará – CIATox/CE 
    - Telefone Emergência: (85) 3255-5050
    - Telefone: (85) 3255-5012

#### Distrito Federal (DF)

- Centro de Informações e Assistência Toxicológicas de Brasília – CIATox/DF 
    - Telefone Emergência: 0800-644-6774
    - Telefone: (61) 3225-6512 / (61) 99288-9358

#### Espírito Santo (ES)

- Centro de Informação e Assistência Toxicológica do Espírito Santo – CIATox/ES 
    - Telefone Emergência: 0800-83-9904
    - Telefone: (27) 3636-7575 / (27) 3636-7503

#### Goiás (GO)

- Centro de Informação Toxicológica de Goiás – CIATOx de Goiás 
    - Telefone Emergência: 0800-646-4350 / (62) 3241-2723
    - Telefone: (62) 3287-2778

#### Mato Grosso (MT)

- Centro Antiveneno de Mato Grosso – CIAVE 
    - Telefone Emergência: 0800-722-6001
    - Telefone: (65) 3318-4872 / (65) 98407-9763

#### Mato Grosso do Sul (MS)

- Centro Integrado de Vigilância Toxicológica – CIVITOX de Campo Grande 
    - Telefone Emergência: 0800-722-6001
    - Telefone: (67) 3386 8655 / 0800-722-6001

#### Minas Gerais (MG)

- Centro de Informação e Assistência Toxicológica de Minas Gerais – CIATox/MG 
    - Telefone Emergência: (31) 3224-4000
    - Telefone: (31) 3239-9224

#### Pará (PA)

- Centro de Informações Toxicológicas – CIT de Belém 
    - Telefone Emergência: 0800 722 6001 / (91) 3249-6370
    - Telefone: (91) 3201-6640 / (91) 3201-6622 / (91) 3249-6370 / (91) 3259-3748 / (91) 98628-4585

#### Paraíba (PB)

- Centro de Informação e Assistência Toxicológica – CIATox de Campina Grande 
    - Telefone Emergência: 0800-722-6001
    - Telefone: (83) 3310-5850 (Ramal 5853)
- Centro de Informação e Assistência Toxicológica – CIATOX de João Pessoa
- Telefone Emergência: 0800-722-6001
- Telefone: (83) 3224-6688 / (83) 3216-7007

#### Paraná (PR)

- Centro de Informação e Assistência Toxicológica do Paraná - CIATox/Paraná 
    - Telefone Emergência: 08000-410-148
    - Telefone: (41) 3235-6737 / (41) 99117-3002
- Centro de Informação e Assistência Toxicológica de Cascavel - CIATox/ Cascavel
- Telefone Emergência: (45) 3321-5261 / (45) 3321-5284
- Centro de Informação e Assistência Toxicológica – CIATox-Londrina 
    - Telefone Emergência: (43) 3371-2244
    - Telefone: (43) 3371-2422 / (43) 99601-9491
- Centro de Controle de Intoxicações – CCI de Maringá 
    - Telefone Emergência: (44) 3011-9127
    - Telefone: (44) 3011-9431

#### Pernambuco (PE)

- Centro de Informação e Assistência Toxicológica de Pernambuco – CIATOx – PE 
    - Telefone Emergência: 0800-722-6001
    - Telefone: (81) 3181-6450

#### Piauí (PI)

- Centro de Informações Toxicológicas – CITOX do Piauí 
    - Telefone Emergência: 0800-280-3661
    - Telefone: (86) 981788257

#### Rio de Janeiro (RJ)

- Centro de Controle de Intoxicações – CCIn de Niterói 
    - Telefone Emergência: 0800-722-6001
    - Telefone: (21) 2629-9033

#### Rio Grande do Norte (RN)

- Centro de Informação Toxicológica do Rio Grande do Norte – CEATOX/RN 
    - Telefone Emergência: 0800-281-7005 / (84) 9 8883-9155 (whatsapp)
    - Telefone: (84) 3232-4295
    - Email: ciatoxrn@gmail.com

#### Rio Grande do Sul (RS)

- Centro de Informação Toxicológica – CIT do Rio Grande do Sul 
    - Telefone Emergência: 0800-721-3000
    - Telefone: (51) 2139-9200

#### Santa Catarina (SC)

- Centro de Informação e Assistência Toxicológica – CIATox de Santa Catarina 
    - Telefone Emergência: 0800-643-5252
    - Telefone: (48) 3721-9083

#### São Paulo (SP)

- Centro de Assistência Toxicológica de Botucatu – CEATOX 
    - Telefone Emergência: (14 ) 3880-0673
    - Telefone: (14) 3880 0676 / (14) 3880 0678 / (14) 3880 0675 / (14) 3880 0673
- Centro de Informação e Assistência Toxicológica – CIATox de Campinas 
    - Telefone Emergência: (19) 3521 7555
    - Telefone: (19) 3521-7573
- Centro de Informação e Assistência Toxicológica de Ribeirão Preto (CIATox) 
    - Telefone Emergência: (16) 3602-1190
    - Telefone: (16) 3605-3763
- Centro de Informação e Assistência Toxicológica - CIATox Santos 
    - Telefone Emergência: (13) 3222-2878
    - Telefone: (13) 3234-9463
- Centro de Assistência Toxicológica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo 
    - Telefone Emergência: 0800-014-8110
    - Telefone: (11) 2661-8800 / (11) 2661-8571
- Centro de Controle de Intoxicações de São Paulo CCI 
    - Telefone Emergência: 0800 771 3733
    - Telefone: (11) 5012-2399
- Centro de Informação e Assistência Toxicológica – CIATox de São José do Rio Preto 
    - Telefone Emergência: (17) 3201-5175 / 3201 5000 (Ramal 1560)
    - Telefone: (17) 3201-5000 (Ramal 1560) / (17) 3201-5175 / (17) 3201-1560
- Centro de Controle de Intoxicação – CCI de São José dos Campos 
    - Telefone Emergência: 0800 722 6001
    - Telefone: (12) 3901-3509
- Centro de Controle de Intoxicações – CCI de Taubaté 
    - Telefone Emergência: (12) 3621-6036
    - Telefone: (12) 3621-3800

#### Sergipe (SE)

- Centro de Informação e Assistência Toxicológica – CIATox de Sergipe 
    - Telefone Emergência: 0800-722-6001

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Fontes:

- [https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/a/animais-peconhentos/ciatox](https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/a/animais-peconhentos/ciatox)

# Intoxicação por Benzodiazepínicos

**Classe toxicológica:** Sedativo-hipnótico / Depressor do Sistema Nervoso Central  
**Nomes comerciais/Outros nomes:** Diazepam (Valium®, Compaz®), Clonazepam (Rivotril®), Alprazolam (Frontal®), Lorazepam, Midazolam (Dormonid®), Bromazepam (Lexotan®), Flunitrazepam (Rohypnol®)

#### Dose tóxica:

- **Adultos:** Variável conforme o benzodiazepínico. A intoxicação isolada raramente é fatal, mas doses &gt; 10x a dose terapêutica podem causar sedação profunda
- **Crianças:** &gt; 0,3 mg/kg pode causar sedação significativa; &gt; 0,5 mg/kg risco aumentado de depressão respiratória
- **Observações sobre variabilidade individual:** A toxicidade é significativamente maior quando há uso concomitante de álcool, opioides ou outros depressores do SNC. Idosos, pacientes com insuficiência hepática/renal e obesos apresentam maior sensibilidade

#### Quadro clínico:

- **Sinais e sintomas iniciais (primeiras horas):**
    
    
    - Sonolência progressiva
    - Confusão mental e desorientação
    - Ataxia e incoordenação motora
    - Disartria (fala arrastada)
    - Nistagmo
    - Sedação leve a moderada
    - Hiporreflexia
- **Sinais e sintomas tardios:**
    
    
    - Depressão do nível de consciência (estupor a coma)
    - Depressão respiratória (bradipneia, hipoventilação)
    - Hipotensão (mais comum em intoxicação mista)
    - Bradicardia (mais comum em intoxicação mista)
    - Hipotermia
    - Raramente: coma profundo (quando isolado)
- **Achados ao exame físico:**
    
    
    - Rebaixamento do nível de consciência
    - Pupilas reativas (normais ou discretamente mióticas)
    - Ausência ou diminuição de movimentos oculares
    - Hiporreflexia generalizada
    - Depressão respiratória (FR &lt; 12 irpm)
    - Hipotensão arterial (PA sistólica &lt; 90 mmHg)
    - Bradicardia (FC &lt; 60 bpm)

#### Exames complementares indicados:

- Glicemia capilar (descartar hipoglicemia)
- Gasometria arterial (avaliar status respiratório e acidose)
- Eletrólitos (sódio, potássio, cálcio, cloro)
- Função renal (ureia, creatinina)
- Função hepática (TGO, TGP, bilirrubinas)
- Eletrocardiograma (avaliar arritmias, especialmente se intoxicação mista)
- Raio-X de tórax (se suspeita de broncoaspiração)
- Tomografia de crânio (se trauma associado ou suspeita de causa estrutural do coma)
- Dosagem sérica de benzodiazepínicos (quando disponível, pouco valor prático no manejo agudo)
- Triagem toxicológica urinária (identificar intoxicação mista)

#### Critérios de internação:

- Rebaixamento do nível de consciência (Glasgow &lt; 13)
- Depressão respiratória (FR &lt; 12 irpm, SpO₂ &lt; 90%, hipercapnia)
- Instabilidade hemodinâmica (hipotensão refratária)
- Necessidade de suporte ventilatório
- Intoxicação mista (benzodiazepínicos + álcool/opioides/outros depressores)
- Tentativa de autoextermínio
- Impossibilidade de observação domiciliar adequada
- **Critérios para UTI:**
    - Glasgow ≤ 8 ou necessidade de via aérea definitiva
    - Depressão respiratória grave (necessidade de ventilação mecânica)
    - Instabilidade hemodinâmica necessitando de vasopressores

#### Tratamento:

- **Medidas gerais:**
    
    
    - Estabilização inicial (ABC - via aérea, respiração, circulação)
    - Monitorização contínua (ECG, oximetria, PA, FR, temperatura)
    - Oxigenoterapia suplementar conforme necessidade
    - Acesso venoso calibroso
    - Proteção de via aérea se Glasgow ≤ 8
    - Ventilação assistida se depressão respiratória grave (considerar intubação orotraqueal)
    - Posicionamento adequado (decúbito lateral - prevenir broncoaspiração)
    - Ressuscitação volêmica se hipotensão (SF 0,9% 500-1000 mL)
    - Vasopressores se hipotensão refratária (noradrenalina 0,05-0,5 mcg/kg/min)
    - Aquecimento passivo se hipotermia
    - **Descontaminação:** Carvão ativado 1 g/kg (máx. 50g) VO/SNG se ingestão &lt; 1-2 horas e paciente consciente/via aérea protegida. Lavagem gástrica geralmente não indicada (baixo benefício/alto risco)
- **Antídoto/Tratamento específico:**
    
    
    - **Nome:** Flumazenil (Lanexat®)
    - **Apresentação:** Ampolas de 0,5 mg/5 mL (0,1 mg/mL) e 1 mg/10 mL (0,1 mg/mL)
    - **Indicações:**
        - Depressão respiratória significativa (FR &lt; 10 irpm)
        - Rebaixamento grave do nível de consciência (Glasgow ≤ 8) por benzodiazepínicos
        - Intoxicação confirmada por benzodiazepínicos sem contraindicações
    - **Dose e administração:**
        - **Adultos:**
            - Dose inicial: 0,2-0,3 mg EV em 15-30 segundos
            - Repetir: 0,1-0,2 mg EV a cada 1-2 minutos até reversão ou dose máxima
            - Dose máxima: 2-3 mg (total)
            - Se não houver resposta com 2-3 mg em 5-10 minutos, considerar outra causa
        - **Crianças:**
            - Dose inicial: 0,01 mg/kg EV (máx. 0,2 mg) em 15-30 segundos
            - Repetir: 0,01 mg/kg (máx. 0,2 mg) a cada 1 minuto até reversão
            - Dose máxima: 1 mg (total) ou 0,05 mg/kg
    - **Diluição:** Pode ser administrado puro ou diluído em SF 0,9% ou SG 5% (facilita administração lenta)
    - **Prescrição prática:**
        - `Flumazenil 0,5 mg/5 mL – Administrar 0,2-0,3 mg (2-3 mL) EV lento em 15-30 segundos, dose inicial`
        - `Se necessário, repetir 0,1-0,2 mg (1-2 mL) EV a cada 1-2 minutos até reversão completa ou dose máxima de 2-3 mg`
        - `Infusão contínua (se ressedação): Flumazenil 5 ampolas (2,5 mg) + SF 0,9% 250 mL = 10 mcg/mL, infundir 0,1-0,4 mg/h (10-40 mL/h)`
    - **Efeitos adversos do antídoto:**
        - Náuseas e vômitos
        - Tontura
        - Agitação e ansiedade
        - Tremores
        - Sudorese
        - Taquicardia e palpitações
        - Crises convulsivas (em pacientes predispostos)
        - Síndrome de abstinência (em usuários crônicos)
        - Ressedação (efeito mais curto que os benzodiazepínicos - meia-vida 40-80 min)
    - **Contraindicações:**
        - **ABSOLUTAS:**
            - Uso crônico de benzodiazepínicos (risco de síndrome de abstinência grave e convulsões)
            - Intoxicação concomitante com antidepressivos tricíclicos (risco de convulsões e arritmias)
            - História de epilepsia ou convulsões
            - Intoxicação mista com pró-convulsivantes (cocaína, anfetaminas, aminofilina, teofilina)
            - Hipersensibilidade ao flumazenil
            - Dependência física de benzodiazepínicos
        - **RELATIVAS:**
            - Hipertensão intracraniana
            - Traumatismo cranioencefálico grave
            - Intoxicação mista com outras substâncias
            - Pacientes em tratamento de estado epiléptico com benzodiazepínicos
- **Tratamento de suporte:**
    
    
    - Manutenção de sinais vitais estáveis
    - Hidratação venosa adequada
    - Correção de distúrbios hidroeletrolíticos
    - Suporte ventilatório se necessário (considerar ventilação não invasiva ou IOT)
    - Monitorização rigorosa por ressedação (efeito do flumazenil é mais curto que dos benzodiazepínicos)
    - Considerar infusão contínua de flumazenil se ressedação recorrente
    - Avaliação psiquiátrica em casos de tentativa de autoextermínio
    - Suporte psicológico

#### Tempo de observação:

- **Intoxicação leve (consciente, sem depressão respiratória):** Mínimo 4-6 horas
- **Intoxicação moderada (sedação importante, mas sem depressão respiratória):** Mínimo 12-24 horas
- **Intoxicação grave ou uso de flumazenil:** Mínimo 24-48 horas (risco de ressedação)
- **Benzodiazepínicos de longa duração (diazepam, clonazepam, flurazepam):** Prolongar observação para 24-72 horas
- **Intoxicação mista:** Tempo ditado pela substância mais tóxica
- **Condições que prolongam observação:**
    - Uso de benzodiazepínicos de meia-vida longa
    - Ressedação após uso de flumazenil
    - Depressão respiratória recorrente
    - Instabilidade hemodinâmica
    - Tentativa de autoextermínio (manter até avaliação psiquiátrica)
    - Impossibilidade de observação domiciliar adequada

#### Critérios de alta:

- Paciente alerta, orientado e deambulando sem ataxia
- Glasgow 15 por pelo menos 4-6 horas sem nova sedação
- Função respiratória normal (FR &gt; 12 irpm, SpO₂ &gt; 94% em ar ambiente)
- Sinais vitais estáveis sem suporte por pelo menos 6 horas
- Ausência de depressão respiratória
- Ausência de complicações (broncoaspiração, trauma)
- Avaliação psiquiátrica completa (se tentativa de autoextermínio)
- Garantia de acompanhamento domiciliar adequado
- **Orientações pós-alta:**
    - Evitar dirigir ou operar máquinas por 24-48 horas
    - Acompanhamento ambulatorial (clínico e psiquiátrico se aplicável)
    - Orientação sobre riscos da intoxicação e prevenção
    - Retornar imediatamente se ressedação, dificuldade respiratória ou alteração do nível de consciência

#### Observações importantes:

- **Particularidades do manejo:**
    
    
    - A intoxicação isolada por benzodiazepínicos raramente é fatal
    - O maior risco ocorre em intoxicação mista (álcool + benzodiazepínicos ou opioides + benzodiazepínicos)
    - O uso rotineiro de flumazenil NÃO é recomendado devido ao risco de convulsões e síndrome de abstinência
    - Flumazenil deve ser reservado para casos graves com depressão respiratória ou coma profundo
    - A ressedação após flumazenil é comum (meia-vida do flumazenil: 40-80 min vs meia-vida dos benzodiazepínicos: até 100 horas)
    - NUNCA usar flumazenil sem descartar intoxicação concomitante com antidepressivos tricíclicos ou pró-convulsivantes
- **Prognóstico:**
    
    
    - Excelente quando intoxicação isolada e tratamento adequado
    - Recuperação completa esperada em 24-48 horas na maioria dos casos
    - Mortalidade &lt; 1% em intoxicação isolada
    - Mortalidade significativamente maior em intoxicação mista (até 10-15%)
- **Complicações tardias a monitorar:**
    
    
    - Broncoaspiração e pneumonia aspirativa
    - Rabdomiólise (se coma prolongado)
    - Lesões por pressão (se imobilização prolongada)
    - Síndrome de abstinência (em usuários crônicos após alta)
- **Interações relevantes:**
    
    
    - Álcool: potencializa significativamente a depressão do SNC
    - Opioides: sinergismo para depressão respiratória (MUITO PERIGOSO)
    - Antidepressivos tricíclicos: risco de convulsões com flumazenil
    - Barbitúricos: potencialização da sedação
    - Anti-histamínicos: aumento da sedação
- **Ajustes em populações especiais:**
    
    
    - **Gestantes:** Flumazenil categoria C - usar apenas se benefício justificar risco. Benzodiazepínicos podem causar síndrome do "bebê flácido" e síndrome de abstinência neonatal
    - **Idosos:** Maior sensibilidade aos efeitos sedativos; doses menores de flumazenil; prolongar observação
    - **Insuficiência renal:** Ajustar doses se necessário suporte medicamentoso; flumazenil pode ser usado (metabolização hepática)
    - **Insuficiência hepática:** Metabolização reduzida dos benzodiazepínicos - efeito prolongado; flumazenil deve ser usado com cautela (também metabolização hepática); prolongar observação
    - **Crianças:** Mais sensíveis à depressão respiratória; doses ajustadas ao peso; observação prolongada

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# Intoxicação por Opioides

**Classe toxicológica:** Analgésicos narcóticos / Depressores do Sistema Nervoso Central

**Nomes comerciais/Outros nomes:** Morfina, Codeína, Tramadol, Metadona, Oxicodona, Fentanil, Heroína, Alfentanil, Sufentanil, Remifentanil, Meperidina (Dolantina®), Petidina

#### Dose tóxica:

- **Adultos:** Variável conforme o opioide específico e tolerância prévia. Doses terapêuticas podem causar toxicidade em pacientes sem uso prévio
- **Crianças:** Qualquer ingestão acidental deve ser considerada potencialmente grave
- **Observações sobre variabilidade individual:**
    - Usuários crônicos desenvolvem tolerância significativa, necessitando doses maiores para toxicidade
    - Pacientes naive (sem uso prévio) apresentam maior sensibilidade
    - Opioides de longa duração (metadona, buprenorfina) apresentam risco prolongado
    - Formulações transdérmicas (adesivos de fentanil) podem liberar grandes quantidades de forma prolongada

#### Quadro clínico:

- **Sinais e sintomas iniciais (primeiras horas):**
    - Tríade clássica: depressão do nível de consciência, depressão respiratória e miose
    - Sonolência progressiva, confusão mental
    - Náuseas e vômitos
    - Bradipneia (frequência respiratória &lt; 12 irpm)
    - Bradicardia
    - Hipotensão
    - Prurido
- **Sinais e sintomas tardios:**
    - Estupor ou coma profundo
    - Apneia ou parada respiratória
    - Edema agudo de pulmão não cardiogênico
    - Hipotermia
    - Convulsões (principalmente meperidina e tramadol)
    - Rabdomiólise (em casos de imobilização prolongada)
    - Síndrome compartimental
- **Achados ao exame físico:**
    - **Pupilas:** Miose puntiforme bilateral, reativa à luz (patognomônico)
    - **Neurológico:** Glasgow reduzido, hiporreflexia, hipotonia
    - **Respiratório:** Bradipneia, respiração superficial, crepitações pulmonares (edema)
    - **Cardiovascular:** Bradicardia, hipotensão, pulsos periféricos diminuídos
    - **Pele:** Cianose, palidez, marcas de punção venosa (usuários crônicos)
    - **Extremidades:** Lesões por pressão, sinais de rabdomiólise

#### Exames complementares indicados:

- **Gasometria arterial:** Acidose respiratória (pCO₂ elevado), hipoxemia
- **Hemograma completo:** Leucocitose em complicações infecciosas
- **Função renal:** Ureia, creatinina (avaliar rabdomiólise)
- **CPK (creatinoquinase):** Elevada em rabdomiólise
- **Eletrólitos:** Sódio, potássio, cálcio
- **Glicemia capilar:** Excluir hipoglicemia
- **ECG:** Avaliar arritmias, intervalo QT (principalmente metadona)
- **Radiografia de tórax:** Edema pulmonar, pneumonia aspirativa
- **Dosagem sérica de opioides:** Confirma exposição, mas não altera conduta aguda
- **Screening toxicológico urinário:** Identificar uso concomitante de outras substâncias
- **Tomografia de crânio:** Se trauma associado ou rebaixamento prolongado sem resposta à naloxona
- **Timing:** Exames laboratoriais devem ser colhidos na admissão; gasometria seriada conforme evolução respiratória

#### Critérios de internação:

- Rebaixamento do nível de consciência (Glasgow ≤ 14)
- Depressão respiratória (FR &lt; 12 irpm ou SatO₂ &lt; 92%)
- Necessidade de doses repetidas de naloxona
- Intoxicação por opioides de longa ação (metadona, buprenorfina)
- Complicações: edema pulmonar, rabdomiólise, convulsões
- Tentativa de autoextermínio
- Idade extrema (crianças, idosos)
- Comorbidades graves (DPOC, insuficiência cardíaca)
- **Critérios para UTI:**
    - Necessidade de ventilação mecânica
    - Instabilidade hemodinâmica persistente
    - Depressão respiratória refratária
    - Coma profundo (Glasgow ≤ 8)
    - Edema agudo de pulmão
    - Convulsões de difícil controle

#### Tratamento:

- **Medidas gerais:**
    
    
    - **ABC:** Via aérea pérvia, oxigenação (O₂ suplementar), acesso venoso
    - **Monitorização contínua:** FC, PA, FR, SatO₂, ECG
    - **Suporte ventilatório:** Ventilação com bolsa-valva-máscara se necessário; intubação orotraqueal se Glasgow ≤ 8 ou depressão respiratória grave
    - **Descontaminação gastrointestinal:**
        - Carvão ativado 1 g/kg (dose única) se ingestão oral &lt; 1-2 horas e via aérea protegida
        - Não realizar lavagem gástrica de rotina
        - Contraindicado se nível de consciência rebaixado sem IOT
    - **Posicionamento:** Decúbito lateral esquerdo (posição de recuperação) para prevenir aspiração
    - **Hidratação venosa:** SF 0,9% para manter PA adequada
    - **Aquecimento:** Se hipotermia
- **Antídoto/Tratamento específico:**
    
    
    - **Nome:** Naloxona (Narcan®)
    - **Apresentação:** Ampola de 0,4 mg/mL (1 mL); formulação intranasal 2 mg/dose
    - **Indicações:**
        - Depressão respiratória (FR &lt; 12 irpm)
        - Rebaixamento do nível de consciência com suspeita de intoxicação por opioides
        - Apneia ou parada respiratória
    - **Dose e administração:**
        - **Adultos:**
            - **Sem depressão respiratória grave:** 0,05 a 0,4 mg EV (especialmente em dependentes, para evitar abstinência grave)
            - **Com depressão respiratória grave:** 0,4 a 2 mg EV em bolus
            - **Parada respiratória/PCR:** 2 mg EV
            - **Via intranasal:** 2 mg (pré-hospitalar)
            - **Via intramuscular:** 0,4 a 2 mg IM (início de ação mais lento)
            - **Repetição:** A cada 2-3 minutos até reversão da depressão respiratória ou melhora do nível de consciência
            - **Dose máxima cumulativa:** 10 mg EV
        - **Crianças:**
            - **&lt; 5 anos ou &lt; 20 kg:** 0,1 mg/kg EV (máximo 2 mg/dose)
            - **≥ 5 anos ou ≥ 20 kg:** 2 mg EV
            - **Repetir:** A cada 2-3 minutos se necessário
    - **Diluição:**
        - Pode ser administrada pura em bolus lento (1-2 minutos)
        - Para infusão contínua: Naloxona 2 mg (5 ampolas) + SF 0,9% 250 mL = concentração de 0,008 mg/mL
    - **Prescrição prática:**
        - `Naloxona 0,4 mg/mL – 01 ampola (0,4 mg), EV, em bolus lento, dose única`
        - `Naloxona 0,4 mg/mL – 05 ampolas (2 mg), EV, em bolus lento, dose única`
        - `Naloxona 0,4 mg/mL – 01 ampola (0,4 mg), IM, dose única (extra-hospitalar)`
        - **Infusão contínua (se necessário):**
        - `Naloxona 0,4 mg/mL – 05 ampolas (2 mg) + SF 0,9% 250 mL, EV, iniciar 5 mL/h (0,04 mg/h), titular conforme resposta`
    - **Efeitos adversos do antídoto:**
        - **Síndrome de abstinência aguda** em dependentes: agitação, taquicardia, hipertensão, sudorese, náuseas, vômitos, diarreia, midríase, dor abdominal, piloereção
        - Edema agudo de pulmão (raro)
        - Arritmias cardíacas
        - Hipertensão grave
        - Convulsões (raro)
    - **Contraindicações:**
        - Hipersensibilidade conhecida à naloxona (extremamente raro)
        - Não é contraindicação formal, mas usar doses menores em dependentes conhecidos
- **Tratamento de suporte:**
    
    
    - **Hipotensão refratária:** Expansão volêmica com cristaloides; considerar noradrenalina se não responsivo
    - **Edema agudo de pulmão:** Suporte ventilatório (CPAP/BiPAP ou IOT + VM), diuréticos se necessário
    - **Convulsões:** Benzodiazepínicos (midazolam 5-10 mg EV ou diazepam 10 mg EV)
    - **Rabdomiólise:** Hidratação vigorosa, alcalinização urinária se CPK muito elevada
    - **Síndrome de abstinência iatrogênica:** Benzodiazepínicos, clonidina, controle sintomático

#### Tempo de observação:

- **Mínimo de 4-6 horas** após reversão completa dos sintomas e última dose de naloxona
- **24-48 horas** para opioides de longa duração (metadona, buprenorfina, fentanil transdérmico)
- **Prolongar observação se:**
    - Necessidade de doses repetidas de naloxona
    - Ingestão de formulações de liberação prolongada
    - Intoxicação por múltiplas drogas
    - Via de administração subcutânea ou transdérmica (absorção prolongada)
    - Body packing ou body stuffing (ingestão de pacotes de drogas)

#### Critérios de alta:

- **Clínicos:**
    - Nível de consciência normal (Glasgow 15)
    - Função respiratória adequada (FR &gt; 12 irpm, SatO₂ &gt; 94% em ar ambiente)
    - Sinais vitais estáveis por pelo menos 4-6 horas
    - Ausência de necessidade de naloxona por período adequado de observação
    - Ausência de complicações (edema pulmonar, rabdomiólise)
- **Psiquiátricos/Sociais:**
    - Avaliação psiquiátrica se tentativa de autoextermínio
    - Rede de suporte adequada
    - Orientação sobre riscos e encaminhamento para tratamento de dependência química
- **Orientações pós-alta:**
    - Retornar imediatamente se sonolência, dificuldade respiratória ou confusão mental
    - Evitar dirigir ou operar máquinas por 24 horas
    - Não usar opioides ou outras substâncias depressoras do SNC
    - Procurar CAPS-AD ou ambulatório de dependência química para seguimento
    - Orientação familiar sobre sinais de alerta

#### Observações importantes:

- **Particularidades do manejo:**
    - A naloxona tem meia-vida curta (20-30 minutos), enquanto opioides têm duração mais prolongada, portanto **ressedação é comum** e requer vigilância
    - Em usuários crônicos, usar doses menores de naloxona inicialmente para evitar abstinência grave
    - A ausência de miose NÃO exclui intoxicação por opioides (pode ocorrer em hipóxia grave, intoxicação mista ou uso de meperidina)
    - Body packers (transportadores de drogas): considerar TC de abdome; tratamento cirúrgico se obstrução ou ruptura de pacotes
    - Fentanil e análogos sintéticos podem requerer doses muito altas de naloxona
- **Prognóstico:**
    - Excelente se reversão adequada e precoce com naloxona
    - Mortalidade está relacionada a complicações: anóxia cerebral, edema pulmonar, aspiração, trauma
    - Risco de recorrência em usuários de drogas ilícitas
- **Complicações tardias a monitorar:**
    - Pneumonia aspirativa (febre, tosse, infiltrado pulmonar em 24-48h)
    - Rabdomiólise e insuficiência renal aguda (monitorar CPK, ureia, creatinina)
    - Síndrome compartimental (avaliar pulsos e compartimentos musculares)
    - Lesões por pressão e úlceras em pacientes com imobilização prolongada
- **Interações relevantes:**
    - **Álcool e benzodiazepínicos:** Potencializam depressão respiratória (intoxicação mista comum)
    - **Anticolinérgicos:** Podem causar midríase, mascarando a miose típica
    - **Inibidores da MAO:** Podem causar síndrome serotoninérgica com alguns opioides (meperidina, tramadol)
- **Ajustes em populações especiais:**
    - **Gestantes:** Naloxona é segura; preocupação com abstinência fetal se uso crônico materno
    - **Idosos:** Maior sensibilidade aos efeitos; usar doses menores de naloxona inicialmente
    - **Insuficiência renal:** Acúmulo de metabólitos ativos de alguns opioides (morfina-6-glicuronídeo); naloxona não requer ajuste
    - **Insuficiência hepática:** Metabolização prolongada de opioides; observação estendida; naloxona não requer ajuste

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# Intoxicação por Antidepressivos Tricíclicos

**Classe toxicológica:** Antidepressivos - Bloqueadores de canais de sódio

**Nomes comerciais/Outros nomes:** Amitriptilina (Tryptanol®, Amytril®), Imipramina (Tofranil®), Clomipramina (Anafranil®), Nortriptilina (Pamelor®), Desipramina, Trimipramina, Doxepina (Quitaxon®)

#### Dose tóxica:

- **Adultos:** &gt; 10-20 mg/kg (aproximadamente &gt; 1g em dose única)
- **Crianças:** &gt; 5 mg/kg
- **Observações sobre variabilidade individual:**
    - Pacientes em uso crônico podem apresentar tolerância parcial
    - Cardiopatas e idosos têm maior risco de toxicidade
    - A toxicidade é dose-dependente
    - Presença de alterações prévias do sistema de condução cardíaca aumenta o risco

#### Quadro clínico:

- **Sinais e sintomas iniciais (primeiras horas):**
    - Sedação, confusão mental, delirium
    - Taquicardia sinusal
    - Sintomas anticolinérgicos: midríase, boca seca, retenção urinária, íleo paralítico, hipertermia, rubor cutâneo
    - Hipotensão (por bloqueio alfa-1 adrenérgico e redução da contratilidade)
    - Agitação inicial (pode preceder sedação)
- **Sinais e sintomas tardios:**
    - Coma profundo
    - Convulsões (por bloqueio dos receptores GABA-A)
    - Arritmias ventriculares (taquicardia ventricular, fibrilação ventricular) - ocorre em aproximadamente 4% dos casos
    - Hipotensão refratária (principal causa de mortalidade)
    - Parada cardiorrespiratória
    - Síndrome de Brugada induzida
- **Achados ao exame físico:**
    - Sinais vitais: taquicardia, hipotensão, hipertermia
    - Pupilas: midríase
    - Pele: rubor, pele seca
    - Mucosas: secas
    - Nível de consciência: variável (agitação até coma)
    - Abdome: distensão (íleo paralítico)
    - Bexiga: retenção urinária (globo vesical)

#### Exames complementares indicados:

- **ECG de 12 derivações seriado** (fundamental - avaliar a cada 30-60 min inicialmente): 
    - Alargamento do QRS (principal achado - QRS &gt; 100 msec indica cardiotoxicidade)
    - Prolongamento do intervalo PR
    - Prolongamento do intervalo QT/QTc
    - Bloqueios atrioventriculares e intraventriculares
    - Em aVR: onda R' &gt; 3 mm ou relação R/S &gt; 0,7 (sugestivo de intoxicação)
    - Padrão de bloqueio de ramo direito
    - Taquicardia sinusal
- Gasometria arterial (avaliar acidose)
- Ionograma completo (Na, K, Ca, Cl, Mg)
- Glicemia capilar e sérica
- Ureia, creatinina
- Função hepática (TGO, TGP)
- Hemograma
- Lactato arterial
- **Observação:** A dosagem de níveis séricos de ADTs tem valor terapêutico e prognóstico limitado

#### Critérios de internação:

- **Todos os pacientes com intoxicação por ADTs devem ser internados para monitorização**
- Ingestão de qualquer quantidade acima da dose terapêutica
- Presença de sintomas (mesmo leves)
- QRS &gt; 100 msec ao ECG
- Arritmias ou alterações de condução
- Alteração do nível de consciência
- Sintomas anticolinérgicos significativos
- Hipotensão
- Convulsões
- **Critérios para UTI:**
    - QRS &gt; 100 msec
    - Arritmias ventriculares
    - Hipotensão refratária
    - Convulsões
    - Coma (Glasgow &lt; 8)
    - Necessidade de suporte ventilatório
    - Instabilidade hemodinâmica

#### Tratamento:

- **Medidas gerais:**
    
    
    - **ABCDE:** estabilização de vias aéreas, ventilação, circulação
    - Monitorização cardíaca contínua obrigatória
    - Acesso venoso calibroso
    - Oxigenioterapia suplementar se necessário
    - Suporte ventilatório se rebaixamento importante do nível de consciência (Glasgow &lt; 8)
    - **Deterioração clínica pode ser rápida, mesmo com quadro inicial estável**
- **Antídoto/Tratamento específico:**
    
    
    - **Nome:** Bicarbonato de Sódio 8,4%
    - **Apresentação:** Ampola de 10 mL (1 mL = 1 mEq)
    - **Indicações:**
        - QRS &gt; 100 msec
        - Arritmia ventricular (TV, FV)
        - Hipotensão refratária
        - Convulsões refratárias a benzodiazepínicos
    - **Dose e administração:**
        - Adultos: 1-2 mEq/kg (1-2 mL/kg da solução 8,4%) EV em bolus rápido
        - Crianças: 1 mEq/kg (1 mL/kg da solução 8,4%) EV em bolus
    - **Diluição:** Pode ser administrado puro ou diluído em SF 0,9%
    - **Prescrição prática:**
        - `Bicarbonato de Sódio 8,4% 10mL – Administrar 50-100 mL (5-10 ampolas) EV em bolus rápido, repetir após 5 minutos se necessário até estreitamento do QRS ou melhora da pressão arterial`
        - `Bicarbonato de Sódio 8,4% 10mL – Administrar 1-2 mEq/kg (1-2 mL/kg) EV em bolus, pode repetir conforme resposta clínica e eletrocardiográfica`
    - **Efeitos adversos do antídoto:**
        - Hipernatremia
        - Hiperosmolaridade
        - Hipocalemia (redistribuição)
        - Hipocalcemia
        - Alcalose metabólica
        - Piora da oxigenação tecidual (se uso excessivo)
    - **Contraindicações:** Nenhuma contraindicação absoluta na intoxicação por ADTs
- **Descontaminação gastrintestinal:**
    
    
    - **Lavagem gástrica:** considerar se &lt; 1 hora da ingestão e ingestão maciça
    - **Carvão ativado:**
        - Dose: 1 g/kg (máximo 50 g) VO ou por SNG
        - Indicado até 2 horas após a ingestão
        - Pode ser administrado em doses repetidas (50 g a cada 4-6 horas nas primeiras 24h) devido à circulação êntero-hepática dos ADTs
        - Não administrar se rebaixamento do nível de consciência sem via aérea protegida
- **Tratamento de suporte:**
    
    
    - **Hipotensão:**
        - Cristaloides (SF 0,9% 1000-2000 mL em bolus)
        - Se refratária: Noradrenalina 0,05-0,5 mcg/kg/min (vasopressor de escolha)
        - Pode usar Adrenalina se necessário
    - **Convulsões:**
        - Benzodiazepínicos são primeira linha: 
            - `Diazepam 10mg/2mL – Administrar 1-2 ampolas (10-20 mg) EV lento`
            - `Midazolam 15mg/3mL – Administrar 0,2-0,4 mg/kg (1-2 ampolas) EV lento`
        - Se refratário: Bicarbonato de Sódio
        - **Contraindicação:** Fenitoína está contraindicada (pode piorar bloqueios cardíacos)
    - **Arritmias ventriculares:**
        - Bicarbonato de Sódio (primeira linha)
        - Lidocaína pode ser considerada
        - **Amiodarona está contraindicada** (prolonga QT)
    - **Bradiarritmias/Bloqueios:**
        - Atropina 0,5 mg EV a cada 3-5 min (máximo 3 mg)
        - Marca-passo transcutâneo ou transvenoso se necessário
    - **Agitação psicomotora:**
        - Benzodiazepínicos
        - **Contraindicação absoluta:** Flumazenil está contraindicado (pode precipitar convulsões e arritmias)

#### Tempo de observação:

- **Mínimo de 6 horas** em ambiente monitorizado para pacientes assintomáticos
- **Mínimo de 12-24 horas** para pacientes com qualquer sintoma
- **Observação prolongada (24-48 horas)** se: 
    - Ingestão de formulações de liberação prolongada
    - Sintomas anticolinérgicos importantes (reduzem motilidade intestinal)
    - QRS alargado ou alterações eletrocardiográficas
    - Convulsões
    - Necessidade de bicarbonato
- Monitorização cardíaca contínua durante todo o período
- ECG seriado a cada 2-4 horas inicialmente

#### Critérios de alta:

- Ausência de sintomas por pelo menos 6 horas após última dose de tratamento
- ECG normal (QRS &lt; 100 msec, sem arritmias) em pelo menos 2 ECGs seriados com intervalo de 4-6 horas
- Resolução completa de sintomas anticolinérgicos
- Sinais vitais estáveis
- Nível de consciência normal
- Ausência de convulsões
- Avaliação psiquiátrica (se tentativa de autoextermínio)
- **Orientações pós-alta:**
    - Retornar imediatamente se palpitações, tonturas, confusão mental, convulsões
    - Seguimento psiquiátrico obrigatório

#### Observações importantes:

- **Particularidades do manejo:**
    - A deterioração clínica pode ser SÚBITA e RÁPIDA, mesmo em pacientes inicialmente estáveis
    - O QRS &gt; 100 msec é o melhor preditor de toxicidade grave
    - O antagonismo muscarínico reduz a motilidade gastrointestinal, prolongando a absorção
    - Grande volume de distribuição e ligação proteica limitam a eficácia de diurese forçada e diálise
    - Meia-vida variável (7-58 horas)
    - Circulação êntero-hepática prolonga a eliminação
- **Prognóstico:**
    - Mortalidade de 2-3% mesmo com tratamento adequado
    - Principal causa de morte: hipotensão refratária
    - Arritmias ventriculares ocorrem em ~4% dos casos
    - Se paciente sobrevive às primeiras 24 horas, prognóstico geralmente é bom
- **Complicações tardias a monitorar:**
    - Recorrência de arritmias (até 48-72h)
    - Rabdomiólise (se convulsões prolongadas)
    - Pneumonia aspirativa
    - Lesão renal aguda (por hipotensão prolongada)
- **Interações relevantes:**
    - Álcool potencializa depressão respiratória
    - ISRSs (especialmente fluoxetina e paroxetina) inibem metabolismo dos ADTs
    - Antipsicóticos e corticoides podem potencializar efeitos
- **Ajustes em populações especiais:**
    - **Gestantes:** O bicarbonato de sódio pode ser usado normalmente. Monitorização fetal se idade gestacional viável
    - **Idosos:** Maior risco de toxicidade cardíaca. Menor clearance. Reduzir doses de vasopressores inicialmente
    - **Insuficiência renal:** Não requer ajuste significativo (metabolismo hepático). Atenção ao bicarbonato (risco de sobrecarga)
    - **Insuficiência hepática:** Metabolismo reduzido, maior risco de toxicidade prolongada. Considerar observação mais prolongada

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# Intoxicação por Paracetamol

Manejo de intoxicação exógena por Paracetamol.

- **Classe toxicológica:** Analgésico não opioide e antipirético
- **Nomes comerciais/Outros nomes:** Tylenol, Dôrico, Parador, Resfenol, Acetaminofeno, Acetominofen, N-acetil-para-aminofenol

#### Dose tóxica:

- Adultos: &gt; 7,5 g em dose única ou &gt; 150 mg/kg
- Crianças: &gt; 150 mg/kg ou &gt; 200 mg/kg
- Observações sobre variabilidade individual: 
    - Dose terapêutica máxima: 4 g/dia em adultos, 2 g/dia em etilistas
    - Em crianças: dose terapêutica de 50 mg/kg/dia
    - Hepatotoxicidade pode ocorrer com ingestões de 2-4 vezes a dose terapêutica
    - Overdoses &lt; 150 mg/kg são improváveis de resultar em toxicidade
    - Fatores de risco: doença hepática prévia, etilismo crônico, desnutrição, uso de indutores enzimáticos (fenitoína, carbamazepina)

#### Quadro clínico:

- **Sinais e sintomas iniciais (primeiras horas - Fase I: 0-24h):**
    - Assintomático ou sintomas inespecíficos
    - Anorexia
    - Náuseas e vômitos
    - Mal-estar generalizado
    - Palidez
    - Diaforese
    - Letargia
- **Sinais e sintomas tardios:**
    - Fase II (24-72h): Melhora aparente dos sintomas iniciais, início de elevação de transaminases, dor em quadrante superior direito do abdomen, hepatomegalia
    - Fase III (72-96h): Pico de hepatotoxicidade, icterícia, coagulopatia (sangramento), confusão mental/encefalopatia hepática, insuficiência renal aguda, acidose metabólica, hipoglicemia
    - Fase IV (&gt; 5 dias): Recuperação completa ou evolução para insuficiência hepática fulminante e morte
- **Achados ao exame físico:**
    - Fase inicial: geralmente exame físico normal
    - Fase II-III: hepatomegalia dolorosa, icterícia, sinais de encefalopatia (alteração do nível de consciência, asterixis), manifestações hemorrágicas

#### Exames complementares:

- **Função hepática (admissão e diariamente por 3 dias):**
    - AST (TGO) e ALT (TGP)
    - Bilirrubinas totais e frações
    - Fosfatase alcalina, Gama-GT
- **Coagulograma:** TP/INR, TTPA
- **Função renal:** ureia, creatinina
- **Eletrólitos:** sódio, potássio, cálcio, bicarbonato, cloro
- **Glicemia**
- **Gasometria arterial** (se sinais de gravidade)
- **Hemograma completo**
- **CPK** (se suspeita de rabdomiólise)
- **Amilase** (se suspeita de pancreatite)
- **Nível sérico de salicilato** (descartar coingestão)

#### Critérios de internação:

- Ingestão de dose potencialmente tóxica (&gt; 150 mg/kg ou &gt; 7,5 g)
- Nível sérico de paracetamol acima da linha de tratamento no nomograma de Rumack-Matthew
- Tempo de ingestão desconhecido com nível sérico &gt; 10 mcg/mL
- Qualquer elevação de transaminases
- Presença de sintomas (náuseas, vômitos, dor abdominal)
- Ingestão com intenção suicida
- História clínica não confiável
- **Critérios para UTI:**
    - Encefalopatia hepática
    - Coagulopatia grave (INR &gt; 3)
    - Insuficiência hepática fulminante
    - Insuficiência renal aguda
    - Acidose metabólica refratária
    - Níveis séricos &gt; 900 mcg/mL
    - Necessidade de hemodiálise ou avaliação para transplante hepático

#### Tratamento:

- **Medidas gerais:**
    
    
    - Estabilização ABC (vias aéreas, respiração, circulação)
    - Acesso venoso calibroso
    - Monitorização contínua de sinais vitais
    - Oxigenoterapia se necessário
    - Hidratação venosa com SF 0,9%
    - Suporte de vômitos: Ondansetrona 4-8 mg EV
    - **Descontaminação gástrica:**
        - Carvão ativado 1 g/kg (máximo 50 g) VO ou SNG
        - Indicado se ingestão há menos de 1-2 horas
        - Contraindicado se rebaixamento do nível de consciência sem via aérea protegida
        - Dose única (não fazer doses repetidas)
    - Correção de hipoglicemia se presente
    - Correção de distúrbios hidroeletrolíticos
- **Antídoto/Tratamento específico:**
    
    
    - **Nome:** N-acetilcisteína (NAC) - Fluimucil®
    - **Apresentação:**
        - Solução oral 20% (200 mg/mL) - frasco 30 mL
        - Solução IV 10% (100 mg/mL) - ampola 30 mL (3 g)
    - **Indicações:**
        - Ingestão há &lt; 24h com critérios no nomograma de Rumack-Matthew
        - Ingestão &gt; 30 g em adulto
        - Concentração sérica de paracetamol desconhecida com previsão de demora do resultado &gt; 8h
        - História clínica não confiável + paracetamol sérico &gt; 10 mcg/mL ou transaminases elevadas
        - Manifestações de disfunção hepática (encefalopatia, coagulopatia, acidose)
        - Ingestão repetida supraterapêutica: paracetamol ≥ 20 mcg/mL ou elevação de transaminases
    - **Dose e administração:**
        - **Via Oral (preferir se náuseas/vômitos ausentes):**
            - Dose de ataque: 140 mg/kg diluído em 200 mL de SGI 5% ou suco de laranja
            - Manutenção: 70 mg/kg a cada 4 horas por 17 doses (total de 18 doses em 72 horas)
        - **Via Endovenosa (preferir se náuseas/vômitos, rebaixamento do sensório ou hepatotoxicidade):**
            - Dose de ataque: 150 mg/kg EV em 200 mL de SGI 5%, infundir em 60 minutos
            - Segunda dose: 50 mg/kg EV em 500 mL de SGI 5%, infundir em 4 horas (12,5 mg/kg/h)
            - Terceira dose: 100 mg/kg EV em 1000 mL de SGI 5%, infundir em 16 horas (6,25 mg/kg/h)
            - **Total: 300 mg/kg em 21 horas**
        - Crianças: mesmas doses por kg
    - **Diluição:**
        - Via oral: diluir em suco de laranja ou SGI 5% (1:3 ou 1:4)
        - Via EV: diluir em SGI 5% conforme esquema acima
    - **Prescrição prática:**
        - **Via Oral:**
            - `N-acetilcisteína 20% (200mg/mL) – Dose de ataque: ___ mL diluídos em 200 mL de SGI 5% ou suco de laranja, administrar VO ou por SNG`
            - `N-acetilcisteína 20% (200mg/mL) – Manutenção: ___ mL diluídos em 100 mL de SGI 5%, administrar VO ou por SNG de 4/4h por 17 doses`
        - **Via Endovenosa:**
            - `N-acetilcisteína 10% (100mg/mL) – Dose de ataque: ___ mL + SGI 5% 200 mL, infundir EV em 60 minutos`
            - `N-acetilcisteína 10% (100mg/mL) – 2ª dose: ___ mL + SGI 5% 500 mL, infundir EV em 4 horas`
            - `N-acetilcisteína 10% (100mg/mL) – 3ª dose: ___ mL + SGI 5% 1000 mL, infundir EV em 16 horas`
    - **Efeitos adversos do antídoto:**
        - Reações anafilactoides (mais comum com via EV): urticária, prurido, rash, broncoespasmo, hipotensão (ocorre em 10-20% dos pacientes)
        - Náuseas e vômitos (mais comum via oral)
        - Cefaleia
        - Manejo de reação anafilactoide: interromper infusão, administrar anti-histamínico ± corticoide, reiniciar infusão em velocidade reduzida
    - **Contraindicações:** Hipersensibilidade conhecida à N-acetilcisteína (relativa)
- **Tratamento de suporte:**
    
    
    - Vitamina K 10 mg EV se coagulopatia
    - Plasma fresco congelado ou concentrado de complexo protrombínico se sangramento ativo
    - Correção de hipoglicemia: Glicose 50% 40-60 mL EV
    - Hemodiálise: indicada se níveis séricos &gt; 900 mcg/mL, acidose metabólica grave refratária, ou insuficiência hepática fulminante
    - **Transplante hepático:** considerar se insuficiência hepática fulminante pelos critérios de King's College modificados

#### Tempo de observação:

- Mínimo de 24 horas se dose potencialmente tóxica ingerida
- 48-72 horas se elevação de transaminases
- Prolongar observação se: 
    - Persistência de sintomas
    - Elevação progressiva de transaminases
    - Desenvolvimento de coagulopatia
    - Alteração do nível de consciência
- Se ingestão de formulação de liberação prolongada: observação mínima 48h e duas dosagens séricas (4h e 8h após ingestão)

#### Critérios de alta:

- Assintomático por pelo menos 24 horas
- Função hepática normal ou em melhora (AST e ALT &lt; 50 UI/L ou em queda progressiva)
- Coagulograma normal
- Função renal normal
- Ausência de encefalopatia
- Nível sérico de paracetamol &lt; 10 mcg/mL
- Tratamento completo com N-acetilcisteína se indicado
- Avaliação psiquiátrica se ingestão intencional
- Orientações sobre não uso de hepatotóxicos
- Acompanhamento ambulatorial agendado

#### Observações importantes:

- **Particularidades do manejo:**
    - A eficácia da N-acetilcisteína é máxima se iniciada nas primeiras 8 horas (diminui mortalidade em 21-28%)
    - Benefício da N-acetilcisteína persiste mesmo após 24h da ingestão em pacientes com hepatotoxicidade
    - O nomograma de Rumack-Matthew só é válido para ingestão aguda única nas últimas 24h
    - Não aplicar nomograma em: ingestão crônica, ingestão repetida, tempo de ingestão desconhecido, ingestão &gt; 24h
    - Via EV preferível se: náuseas/vômitos, rebaixamento sensório, sinais de hepatotoxicidade
    - Via oral tem eficácia semelhante mas maior incidência de vômitos
    - Carvão ativado pode interferir na absorção de N-acetilcisteína oral (administrar com intervalo)
- **Prognóstico:**
    - Excelente se tratamento precoce (&lt; 8h)
    - Mortalidade &lt; 1% se tratamento adequado
    - Recuperação completa em 5-7 dias na maioria dos casos sem hepatotoxicidade grave
- **Complicações tardias a monitorar:**
    - Insuficiência hepática fulminante (pico em 72-96h)
    - Insuficiência renal aguda
    - Pancreatite
    - Miocardite (rara)
    - Encefalopatia hepática
- **Interações relevantes:**
    - Indutores enzimáticos (fenitoína, carbamazepina, rifampicina, isoniazida) aumentam risco de hepatotoxicidade
    - Etanol: uso agudo tem efeito protetor (compete pela CYP2E1), uso crônico aumenta risco
    - Inibidores da CYP2E1 (cimetidina) podem ter efeito protetor
- **Ajustes em populações especiais:**
    - **Gestantes:** N-acetilcisteína categoria B - usar sem restrições, benefício supera risco
    - **Idosos:** maior risco de hepatotoxicidade, ajustar dose pela massa corporal
    - **Insuficiência renal:** não necessita ajuste de dose de N-acetilcisteína
    - **Insuficiência hepática prévia:** maior risco de toxicidade, iniciar N-acetilcisteína precocemente
    - **Etilistas crônicos:** dose tóxica menor (&gt; 2 g/dia), maior suscetibilidade à hepatotoxicidade
- **Critérios de King's College modificados para insuficiência hepática fulminante:**
    - pH arterial &lt; 7,30 (após ressuscitação) OU
    - INR &gt; 6,5 (TP &gt; 100 segundos) + Creatinina &gt; 3,4 mg/dL + Encefalopatia grau III ou IV
    - Presença de qualquer critério indica mau prognóstico e necessidade de avaliação para transplante hepático

# Intoxicação por Organofosforados e Carbamatos

**Classe toxicológica:** Inseticidas inibidores da colinesterase (agrotóxicos anticolinesterásicos)

**Nomes comerciais/Outros nomes:** Malathion, Paration, Fenthion, Diazinon, Clorpirifós, Metamidofós, Temefós, Diclorvós (organofosforados). Aldicarb (Chumbinho), Carbaril, Carbofurano, Propoxur, Metomil (carbamatos). Também presentes em produtos domésticos e industriais.

#### Dose tóxica:

- Adultos: variável conforme o composto (DL50 entre 2mg/kg a 2.000mg/kg). Organofosforados são geralmente mais tóxicos que carbamatos
- Crianças: maior susceptibilidade, doses menores podem ser letais (&lt; 1mg/kg para compostos altamente tóxicos)
- Observações sobre variabilidade individual: depende do tipo de composto, via de exposição (oral, inalatória, cutânea), concentração do produto e susceptibilidade individual. Organofosforados causam inibição irreversível da colinesterase, enquanto carbamatos causam inibição reversível (recuperação em 24-48h)

#### Quadro clínico:

- **Sinais e sintomas iniciais (primeiras horas):**
    - **Síndrome muscarínica** ("síndrome molhada"): sialorréia, lacrimejamento, rinorreia, sudorese, miose puntiforme, broncorreia, broncoespasmo, sibilância, bradicardia, hipotensão, náuseas, vômitos, diarreia, cólicas abdominais, incontinência urinária e fecal
    - **Síndrome nicotínica**: fasciculações musculares generalizadas (especialmente face e pálpebras), cãibras, fraqueza muscular progressiva, taquicardia inicial, hipertensão inicial, midríase (pode ocorrer paradoxalmente), palidez cutânea
    - **Sistema Nervoso Central**: cefaleia, tonturas, confusão mental, ansiedade, agitação ou letargia, ataxia
- **Sinais e sintomas tardios:**
    - Progressão da fraqueza muscular até paralisia flácida (inclusive musculatura respiratória)
    - Insuficiência respiratória aguda (por broncoespasmo, broncorreia, depressão do centro respiratório e paralisia muscular)
    - Depressão do nível de consciência, estupor, coma
    - Convulsões (podem ser refratárias)
    - Arritmias cardíacas graves
    - Síndrome intermediária (24-96h após): fraqueza de musculatura proximal, cervical e respiratória sem sinais colinérgicos
    - Neuropatia tardia (2-4 semanas após): fraqueza e parestesias em membros inferiores, ataxia (mais comum em organofosforados específicos)
- **Achados ao exame físico:**
    - Miose puntiforme bilateral (sinal mais característico, mas pode estar ausente)
    - Fasciculações musculares generalizadas
    - Broncorreia abundante e sibilância difusa
    - Bradicardia ou taquicardia
    - Hipotensão
    - Redução do nível de consciência
    - Hiperperistaltismo intestinal
    - Secreções excessivas em vias aéreas
    - Fraqueza ou paralisia muscular

#### Exames complementares indicados:

- **Dosagem de colinesterase eritrocitária (acetilcolinesterase - AChE)**: redução &gt; 50% confirma intoxicação significativa; redução &gt; 70% indica intoxicação grave. Repetir a cada 2 horas nas primeiras 12-24h para avaliar evolução
- **Dosagem de colinesterase plasmática (butirilcolinesterase - BChE)**: menos específica, mas útil quando AChE indisponível
- Gasometria arterial: avaliar acidose metabólica, hipoxemia e hipercapnia
- Eletrólitos (ionograma): avaliar distúrbios hidroeletrolíticos
- Glicemia
- Função renal (ureia, creatinina)
- Função hepática (TGO, TGP, bilirrubinas) - pode haver hepatotoxicidade
- Amilase sérica (pancreatite)
- CPK: avaliar rabdomiólise
- Hemograma completo
- ECG: avaliar bloqueios e arritmias
- Radiografia de tórax: avaliar edema pulmonar e broncoaspiração
- Teste terapêutico com atropina pode confirmar diagnóstico

#### Critérios de internação:

- Qualquer paciente com sinais e sintomas de intoxicação moderada a grave
- Exposição intencional (tentativa de suicídio) - sempre internar
- Redução da colinesterase &gt; 50% dos valores normais
- Presença de sintomas respiratórios (broncoespasmo, broncorreia, insuficiência respiratória)
- Alteração do nível de consciência
- Fasciculações ou fraqueza muscular
- Necessidade de atropinização
- Convulsões
- Arritmias cardíacas ou instabilidade hemodinâmica
- **Critérios para UTI**: insuficiência respiratória com necessidade de ventilação mecânica, choque, coma, convulsões refratárias, necessidade de infusão contínua de atropina em altas doses

#### Tratamento:

- **Medidas gerais:**
    
    
    - **ABC da reanimação**: manter vias aéreas pérvias, oxigenação adequada, acesso venoso
    - **Descontaminação cutânea**: remover roupas contaminadas (usar EPIs - luvas, avental), lavar pele e cabelos com água e sabão abundantes
    - **Descontaminação gastrointestinal** (se ingestão até 1-2h): lavagem gástrica (contraindicada se convulsões ou rebaixamento de consciência sem via aérea protegida)
    - **Carvão ativado**: 1g/kg (máximo 50g) em dose única, se ingestão até 4h e paciente consciente ou com via aérea protegida
    - **Suporte ventilatório**: oxigênio suplementar, intubação orotraqueal e ventilação mecânica se necessário (aspiração frequente de secreções)
    - **Monitorização contínua**: ECG, oximetria, pressão arterial
    - **Hidratação venosa**: cristaloides para manter perfusão adequada
    - **Evitar**: succinilcolina (bloqueador neuromuscular despolarizante - contraindicado), morfina e outras drogas que aumentem secreções
- **Antídoto/Tratamento específico:**
    
    **ATROPINA (Sulfato de Atropina)**
    
    
    - **Nome:** Sulfato de Atropina
    - **Apresentação:** Ampolas de 0,25mg/mL (1mL) ou 0,5mg/mL (1mL)
    - **Indicações:** Reverter efeitos muscarínicos (broncorreia, broncoespasmo, bradicardia, miose, hipersecreções). NÃO reverte efeitos nicotínicos (fasciculações, fraqueza)
    - **Dose e administração:**
        - **Adultos**: 
            - Dose inicial: 1-2mg (2-4 ampolas de 0,5mg) EV em bolus
            - Repetir 1-2mg EV a cada 5-15 minutos até atropinização
            - Duplicar a dose a cada administração se resposta inadequada
            - Não há dose máxima estabelecida (casos graves podem necessitar &gt; 100mg em 24h)
        - **Crianças**: 
            - Dose inicial: 0,01-0,05mg/kg EV (mínimo 0,1mg)
            - Repetir a cada 5-15 minutos até atropinização
            - Dose de manutenção: 0,02-0,08mg/kg/h em infusão contínua
    - **Sinais de atropinização adequada (objetivo do tratamento):**
        - Secura de mucosas (axilas secas - melhor parâmetro)
        - Ausculta pulmonar limpa (sem crepitações/sibilâncias)
        - Frequência cardíaca &gt; 80bpm
        - Pressão arterial normalizada
        - Pupilas midriáticas ou normais (NÃO usar como único parâmetro)
    - **Diluição:** Pode ser administrada pura ou diluída em 10-20mL de SF 0,9%
    - **Prescrição prática:**
        - `Sulfato de Atropina 0,5mg/mL - Administrar 2-4 ampolas (1-2mg) EV em bolus a cada 5-15 minutos até atropinização`
        - `Sulfato de Atropina 0,5mg/mL - Após atropinização, manter infusão contínua com dose titulada para controle de sintomas muscarínicos`
    - **Manutenção da atropinização:** Ajustar doses ou intervalos para manter sinais de atropinização por 12-24h (casos graves até 5-7 dias)
    - **Efeitos adversos do antídoto:** Taquicardia, hipertensão, hipertermia, agitação psicomotora, delirium, rubor facial, retenção urinária, íleo paralítico, midríase excessiva. Diferenciar sintomas de intoxicação por atropina de efeitos nicotínicos persistentes
    - **Contraindicações:** Não há contraindicações absolutas na intoxicação aguda grave
    
    **PRALIDOXIMA (Cloreto de Pralidoxima, Contrathion®, 2-PAM)**
    
    
    - **Nome:** Cloreto de Pralidoxima (oxima)
    - **Apresentação:** Ampolas ou frascos de 1g
    - **Indicações:**
        - Reverter efeitos nicotínicos (fasciculações, fraqueza muscular, paralisia)
        - Auxiliar na reversão de efeitos muscarínicos
        - Regenerar a acetilcolinesterase (mais efetiva nas primeiras 24-48h)
        - MAIS EFICAZ em organofosforados; efeito limitado em carbamatos (mas pode ser usada na dúvida)
    - **Dose e administração:**
        - **Adultos**: 
            - Dose de ataque: 1-2g (30mg/kg) EV lento em 15-30 minutos
            - Manutenção: 500mg/h OU 8-10mg/kg/h em infusão contínua por 24-48h ou até resolução dos sintomas
            - Pode repetir bolus de 1-2g a cada 4-6h se não disponível infusão contínua
        - **Crianças**: 
            - Dose de ataque: 20-40mg/kg (máximo 2g) EV lento em 15-30 minutos
            - Manutenção: 10-20mg/kg/h em infusão contínua
    - **Diluição:** Diluir 1g em 100mL de SF 0,9% e administrar em 15-30 minutos (NUNCA em bolus rápido)
    - **Prescrição prática:**
        - `Cloreto de Pralidoxima 1g + SF 0,9% 100mL - Administrar EV lento em 20-30 minutos, dose de ataque`
        - `Cloreto de Pralidoxima - Manutenção: 500mg/h (ou 8-10mg/kg/h) em BIC por 24-48h`
    - **Efeitos adversos do antídoto:** Taquicardia, hipertensão, náuseas, tonturas, cefaleia, fraqueza. RISCO DE: laringoespasmo, rigidez muscular e parada cardiorrespiratória se infusão muito rápida
    - **Contraindicações:** Hipersensibilidade conhecida ao medicamento
    - **IMPORTANTE:**
        - SEMPRE usar pralidoxima APÓS atropina (nunca antes ou isoladamente)
        - Infusão LENTA obrigatória
        - Efeito inicial pode piorar sintomas colinérgicos (por isso usar com atropina)
        - Mais efetiva se iniciada nas primeiras 24-48h
- **Tratamento de suporte:**
    
    
    - **Convulsões**: Benzodiazepínicos (diazepam 5-10mg EV ou midazolam 5mg EV). Diazepam profilático pode prevenir sequelas neurocognitivas
    - **Ventilação mecânica**: se insuficiência respiratória, aspiração frequente de secreções, PEEP adequado
    - **Vasopressores**: se hipotensão refratária à reposição volêmica (noradrenalina preferencial)
    - **Correção de distúrbios hidroeletrolíticos e ácido-básicos**
    - **Suporte nutricional**: precoce em casos graves
    - **Fisioterapia respiratória e motora**
    - **Profilaxia de complicações**: úlcera de estresse, trombose venosa profunda

#### Tempo de observação:

- **Mínimo 6-12 horas** para todos os pacientes sintomáticos ou com exposição intencional
- **24-48 horas** para intoxicações moderadas a graves
- **Até 72-96 horas** para monitorar síndrome intermediária
- **Seguimento ambulatorial** por 4-6 semanas para avaliar neuropatia tardia e transtorno neuropsiquiátrico crônico
- **Prolongar observação se:**
    - Necessidade contínua de atropina após 12-24h
    - Sintomas recorrentes após suspensão de antídotos
    - Exposição a organofosforados lipofílicos (liberação lenta)
    - Desenvolvimento de síndrome intermediária

#### Critérios de alta:

- Ausência de sintomas colinérgicos por pelo menos 12-24 horas
- Não necessitar de atropina nas últimas 12 horas
- Ausência de sinais de fraqueza muscular ou fadiga respiratória
- Colinesterase em elevação (não precisa estar normalizada)
- Estabilidade hemodinâmica e respiratória
- Capacidade de alimentação oral
- Gasometria arterial normal
- Avaliação psiquiátrica e social adequadas (se tentativa de suicídio)
- **Orientações pós-alta:**
    - Evitar nova exposição ao agrotóxico
    - Retorno se sintomas recorrentes (fraqueza, dispneia, confusão)
    - Seguimento ambulatorial em 7-14 dias para reavaliação clínica e laboratorial
    - Acompanhamento neurológico se desenvolver neuropatia tardia
    - Suporte psiquiátrico/psicológico se tentativa de autoextermínio

#### Observações importantes:

- **Particularidades do manejo:**
    - Intoxicação por organofosforados é MAIS GRAVE que por carbamatos (ligação irreversível vs reversível)
    - Na dúvida diagnóstica, tratar como organofosforado
    - Profissionais de saúde devem usar EPIs ao manusear pacientes contaminados
    - "Síndrome molhada" (hipersecreções) é característica marcante
    - Miose pode estar ausente em fases iniciais ou com midríase nicotínica paradoxal
    - Atropinização é guiada por sinais clínicos, NÃO por dose fixa
    - Casos graves podem necessitar doses extraordinariamente altas de atropina (&gt; 100-1000mg/24h)
- **Prognóstico:**
    - Mortalidade: 5-30% (maior em países em desenvolvimento e áreas rurais)
    - Fatores de mau prognóstico: exposição a compostos altamente tóxicos, atraso no tratamento, necessidade de ventilação mecânica prolongada, desenvolvimento de síndrome intermediária
    - Recuperação completa possível se tratamento adequado e precoce
- **Complicações tardias a monitorar:**
    - **Síndrome intermediária** (24-96h): fraqueza de musculatura proximal, cervical e respiratória; sem sintomas colinérgicos; pode necessitar ventilação mecânica
    - **Neuropatia tardia** (2-4 semanas): parestesias, fraqueza distal em membros inferiores, déficit motor, ataxia; recuperação lenta e incompleta; mais comum com organofosforados específicos (clorpirifós, metamidofós)
    - **Transtorno neuropsiquiátrico crônico** (semanas a meses): cefaleia persistente, perda de memória, confusão, fadiga, ansiedade, depressão, labilidade emocional
    - Pneumonia aspirativa
    - Insuficiência renal aguda (rabdomiólise)
- **Interações relevantes:**
    - EVITAR succinilcolina (bloqueador neuromuscular despolarizante) - prolonga apneia
    - Cuidado com teofilina, morfina e outras drogas que aumentam secreções
    - Fenotiazinas podem potencializar toxicidade
- **Ajustes em populações especiais:**
    - **Gestantes**: tratar normalmente, risco-benefício favorável ao uso de atropina e pralidoxima
    - **Idosos**: maior risco de complicações cardiovasculares e respiratórias; ajustar doses de atropina com cautela
    - **Crianças**: doses baseadas em peso; maior susceptibilidade à intoxicação
    - **Insuficiência renal/hepática**: não há ajuste específico de atropina; pralidoxima pode acumular em insuficiência renal grave (monitorar)
- **Notificação compulsória**: todos os casos suspeitos ou confirmados devem ser notificados ao SINAN (ficha de intoxicação exógena) e CAT se exposição ocupacional

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# Intoxicação por Raticidas Cumarínicos

**Classe toxicológica:** Anticoagulantes orais (inibidores da síntese de fatores de coagulação dependentes de vitamina K)

**Nomes comerciais/Outros nomes:** Ratol, Rato Lagarto, Mata Rato, D-Con, Maki. Princípios ativos: Warfarina (1ª geração), Brodifacoum, Bromadiolona, Difenacoum, Cumatetralil (2ª geração - superwarfarinas)

#### Dose tóxica:

- **Adultos:** Warfarina: &gt; 0,5 mg/kg; Superwarfarinas: &gt; 1-2 mg (qualquer ingestão intencional deve ser considerada potencialmente tóxica)
- **Crianças:** Warfarina: &gt; 0,5 mg/kg; Superwarfarinas: ingestão acidental de pequenas quantidades (&lt; 1 isca) geralmente não é tóxica
- **Observações sobre variabilidade individual:** Pacientes hepatopatas, em uso de medicações que interagem com anticoagulantes, desnutridos ou com deficiência de vitamina K apresentam maior sensibilidade. Superwarfarinas (2ª geração) são 100x mais potentes que warfarina e têm meia-vida muito prolongada (20-120 dias)

#### Quadro clínico:

- **Sinais e sintomas iniciais (primeiras 24-48h):**
    - Geralmente assintomático nas primeiras 24-72h
    - Período de latência até início da coagulopatia: 1-5 dias
    - Primeiros sintomas podem aparecer apenas após 2-3 dias
- **Sinais e sintomas tardios (após 24-72h):**
    - Manifestações hemorrágicas: epistaxe, gengivorragia, hematúria, melena, hematêmese
    - Equimoses e hematomas espontâneos ou após traumas mínimos
    - Hemorragia intracraniana (sintomas neurológicos)
    - Hemorragia retroperitoneal (dor abdominal/lombar, hipotensão)
    - Hemoptise, hemartrose
    - Sangramento prolongado de feridas
- **Achados ao exame físico:**
    - Palidez cutânea-mucosa
    - Petéquias, equimoses, hematomas
    - Sangramento ativo em mucosas
    - Sinais de hipovolemia se sangramento significativo
    - Déficits neurológicos focais se hemorragia intracraniana

#### Exames complementares indicados:

- **Iniciais (na admissão):**
    - Hemograma completo (hemoglobina, hematócrito, plaquetas)
    - Coagulograma completo: TP/INR, TTPA
    - Tipagem sanguínea e prova cruzada
- **Após 24h e 48h da exposição:**
    - Novo TP/INR e TTPA
    - Hemograma de controle
- **Se sangramento presente:**
    - Ureia, creatinina, eletrólitos
    - Transaminases hepáticas
    - TC de crânio (se alteração neurológica ou trauma craniano)
    - Radiografia de tórax (se hemoptise)
    - TC de abdome (se dor abdominal/sangramento retroperitoneal)
- **Timing:** TP/INR começa a se alterar após 24-48h; pico de alteração em 48-72h. Controles seriados do TP/INR a cada 24-48h por pelo menos 3-5 dias

#### Critérios de internação:

- Ingestão intencional ou tentativa de autoextermínio (qualquer dose)
- Ingestão de superwarfarinas (brodifacoum, bromadiolona)
- Ingestão de dose significativa de warfarina (&gt; 0,5 mg/kg)
- INR &gt; 1,5 em qualquer momento
- Presença de sangramento ativo
- Crianças com ingestão não testemunhada ou duvidosa
- **Internação em UTI se:**
    - Sangramento ativo grave
    - Hemorragia intracraniana
    - Instabilidade hemodinâmica
    - INR &gt; 5,0

#### Tratamento:

- **Medidas gerais:**
    
    
    - Estabilização hemodinâmica (acesso venoso calibroso, reposição volêmica se necessário)
    - Descontaminação gastrointestinal: carvão ativado 50g (adultos) ou 1g/kg (crianças) se &lt; 2h da ingestão e paciente consciente
    - Proteção gástrica: inibidor de bomba de prótons
    - Suspender medicações que potencializam sangramento (AINEs, AAS)
    - Evitar procedimentos invasivos desnecessários e IM se coagulopatia presente
- **Antídoto/Tratamento específico:**
    
    
    - **Nome:** Vitamina K1 (Fitomenadiona)
    - **Apresentação:** Ampolas 10mg/mL (1mL), comprimidos 10mg
    - **Indicações:**
        - INR &gt; 1,5
        - Sangramento ativo independente do INR
        - Ingestão de superwarfarinas (mesmo sem alteração laboratorial inicial)
    - **Dose e administração:**
        - **Adultos com sangramento grave:** 10mg EV lento (diluído em 50mL de SF0,9%) em 30 minutos, pode repetir a cada 12-24h conforme INR
        - **Adultos sem sangramento (INR 1,5-3,0):** 2,5-5mg VO ou EV
        - **Adultos sem sangramento (INR 3,0-10):** 5-10mg VO ou EV
        - **Adultos sem sangramento (INR &gt; 10):** 10mg EV
        - **Crianças:** 0,5-1mg/kg (máximo 10mg) pela mesma via
        - **Superwarfarinas:** doses altas e prolongadas podem ser necessárias (25-125mg/dia por semanas a meses)
    - **Diluição:** 10mg (1 ampola) + 50mL de SF0,9%, infundir em 30 minutos
    - **Prescrição prática:**
        - `Vitamina K1 (Fitomenadiona) 10mg/mL – 01 ampola (10mg) + SF0,9% 50mL, EV em 30 minutos`
        - `Vitamina K1 (Fitomenadiona) 10mg – 01 comprimido, VO, a cada 24h (ou conforme INR)`
    - **Efeitos adversos do antídoto:**
        - Via EV: reação anafilática (rara), hipotensão, rubor facial, dispneia, dor torácica (infusão rápida)
        - Via IM: hematoma local (evitar se coagulopatia)
        - Via oral: melhor tolerada, mas ação mais lenta (4-24h)
    - **Contraindicações:** Hipersensibilidade conhecida à vitamina K1
- **Tratamento de suporte - Reposição de fatores de coagulação:**
    
    
    - **Complexo Protrombínico (CCP):**
        
        
        - Indicação: sangramento grave ameaçador à vida ou INR muito elevado com risco de sangramento
        - Apresentação: 500UI/20mL ou 1000UI/40mL
        - Dose de acordo com INR: 
            - INR 1,3-1,9: 10-20 UI/kg
            - INR 2,0-3,5: 25-35 UI/kg
            - INR &gt; 3,5: 40-50 UI/kg
        - Prescrição prática: `Complexo Protrombínico 1000UI – calcular dose conforme peso e INR, diluir e administrar EV em 10-15 minutos`
        - Reversão imediata do INR
    - **Plasma Fresco Congelado (PFC):**
        
        
        - Indicação: se CCP não disponível
        - Dose: 15-20 mL/kg ou 4 unidades em adultos
        - Prescrição prática: `Plasma Fresco Congelado – 4 unidades (1000mL) EV, em 1 hora`
        - Aumenta 20-30% os níveis dos fatores de coagulação
    - **Concentrado de Hemácias:**
        
        
        - Indicação: Hb &lt; 7 g/dL ou &lt; 8 g/dL se cardiopata/sangramento ativo
        - Dose: 10-20 mL/kg (230-300mL aumenta Hb em 1g/dL)
        - Prescrição prática: `Concentrado de Hemácias – 01 unidade (300mL) EV em 60-120 minutos`

#### Tempo de observação:

- **Ingestão de warfarina (1ª geração):**
    - Mínimo 48-72h com controles seriados de TP/INR
    - Se INR permanecer normal após 48-72h, pode receber alta
- **Ingestão de superwarfarinas (2ª geração):**
    - Mínimo 48-72h de observação inicial
    - Controles de INR podem ser necessários por semanas a meses
    - Seguimento ambulatorial semanal do INR por 4-6 semanas
- **Condições que prolongam observação:**
    - Qualquer elevação do INR
    - Ingestão de dose significativa ou quantidade desconhecida
    - Presença de sangramento
    - Comorbidades (hepatopatia, desnutrição, uso de medicações interagentes)

#### Critérios de alta:

- Ausência de sangramento ativo
- INR &lt; 1,5 em duas medidas com intervalo de 24h (warfarina)
- Paciente assintomático e estável hemodinamicamente
- Hemoglobina estável
- Garantia de seguimento ambulatorial
- Não se aplica a ingestões intencionais até avaliação psiquiátrica
- **Orientações pós-alta:**
    - Retornar imediatamente se sangramento (qualquer sítio)
    - Seguimento ambulatorial com controle de INR: 
        - Warfarina: semanal por 2-3 semanas
        - Superwarfarinas: semanal por 4-6 semanas, depois mensal por 3-6 meses
    - Prescrever vitamina K1 oral se indicado (superwarfarinas)
    - Evitar trauma, quedas, medicações que aumentem sangramento

#### Observações importantes:

- **Particularidades do manejo:**
    - Período de latência: coagulopatia não é imediata, desenvolve-se em 24-72h
    - Meia-vida prolongada: warfarina (36-42h), superwarfarinas (20-120 dias)
    - Mecanismo: inibição da epóxido redutase → impede regeneração de vitamina K → reduz síntese dos fatores II, VII, IX, X e proteínas C e S
    - Fator VII (meia-vida 6h) diminui primeiro → aumento do TP/INR é o primeiro sinal
    - TTPA pode alterar posteriormente (fatores IX, II, X)
- **Prognóstico:**
    - Excelente se diagnóstico precoce e tratamento adequado
    - Mortalidade &lt; 1% com tratamento apropriado
    - Maioria das ingestões acidentais em crianças (&lt; 1 isca) não causa toxicidade
    - Superwarfarinas: recuperação completa, mas requerem tratamento prolongado
- **Complicações tardias a monitorar:**
    - Ressangramento após suspensão precoce de vitamina K
    - Hemorragia intracraniana tardia (pode ocorrer dias após exposição)
    - Síndrome compartimental por sangramento muscular
    - Anemia crônica por sangramento oculto
- **Interações relevantes:**
    - Potencializam efeito: antibióticos (diminuem flora intestinal produtora de vit K), AINEs, AAS, antifúngicos azólicos, amiodarona, omeprazol, álcool
    - Diminuem efeito: rifampicina, carbamazepina, fenobarbital, vitamina K em alimentos
- **Ajustes em populações especiais:**
    - **Gestantes:** Vitamina K é segura (categoria C); evitar warfarina (teratogênico). Avaliar risco-benefício em intoxicações
    - **Idosos:** maior sensibilidade aos anticoagulantes; doses menores de vitamina K podem ser suficientes
    - **Insuficiência hepática:** maior risco de coagulopatia; pode necessitar doses maiores de vitamina K e reposição de fatores
    - **Insuficiência renal:** clearance de anticoagulantes pode estar reduzido; monitorização mais prolongada

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# Intoxicação por Chumbinho (Aldicarb)

**Classe toxicológica:** Carbamato - Inseticida/praguicida inibidor da acetilcolinesterase

**Nomes comerciais/Outros nomes:** Temik 150® (banido no Brasil desde 2012), "raticida", "três passos"

#### Dose tóxica:

- **Adultos:** 0,5-1,0 mg/kg (aproximadamente 1 grama pode ser letal para pessoa de 60kg)
- **Crianças:** &lt;0,5 mg/kg
- **Observações:** Aldicarb é extremamente tóxico - possui a mais elevada toxicidade aguda entre todos os agrotóxicos. A morte pode ocorrer em 30 minutos a 4 horas após ingestão. A gravidade depende da quantidade ingerida, tempo decorrido e início do tratamento.

#### Quadro clínico:

- **Sinais e sintomas iniciais (primeiras horas):**
    
    
    - Náuseas, vômitos, dor abdominal, diarreia
    - Sialorréia (salivação excessiva)
    - Sudorese profusa
    - Lacrimejamento excessivo
    - Miose (pupilas puntiformes)
    - Broncorreia e broncoespasmo
    - Bradicardia
    - Cefaleia, tontura
    - Fasciculações musculares
- **Sinais e sintomas tardios:**
    
    
    - Confusão mental, agitação, delirium
    - Rebaixamento do nível de consciência até coma
    - Insuficiência respiratória (por broncorreia, broncoespasmo e depressão do SNC)
    - Convulsões
    - Hipotensão arterial grave
    - Arritmias cardíacas
    - Paralisia muscular e insuficiência respiratória
    - Edema agudo de pulmão
- **Achados ao exame físico:**
    
    
    - Síndrome colinérgica (DUMBBELS): Diarreia, Urination (micção), Miose, Broncoespasmo/Broncorreia/Bradicardia, Emesis (vômitos), Lacrimejamento, Salivação
    - Fasciculações musculares generalizadas
    - Fraqueza muscular progressiva
    - Hiperreflexia ou hiporreflexia (estágios avançados)
    - Insuficiência respiratória com crepitações/sibilos difusos

#### Exames complementares indicados:

- Hemograma completo
- Gasometria arterial (avaliar hipoxemia e acidose)
- Eletrólitos (Na, K, Ca, Mg)
- Ureia e creatinina
- Glicemia
- Enzimas hepáticas (TGO, TGP)
- Amilase e lipase
- Radiografia de tórax (avaliar edema pulmonar, broncoaspiração)
- ECG (avaliar bradicardia, arritmias, prolongamento QT)
- **Dosagem de colinesterase plasmática e eritrocitária** (quando disponível - redução &gt;50% sugere intoxicação, mas não é necessária para iniciar tratamento)
- Timing: Exames na admissão e controles seriados a cada 6-12h conforme gravidade

#### Critérios de internação:

- Qualquer paciente sintomático após exposição a chumbinho
- Ingestão intencional (independente da dose relatada)
- Presença de sintomas colinérgicos
- Rebaixamento do nível de consciência
- Insuficiência respiratória ou sinais de broncoespasmo/broncorreia significativos
- Fasciculações musculares
- Bradicardia sintomática ou arritmias
- Hipotensão arterial
- Ingestão há menos de 2 horas (mesmo assintomático - observação obrigatória)

**Critérios para UTI:**

- Glasgow &lt;13
- Insuficiência respiratória (necessidade de IOT/VM)
- Instabilidade hemodinâmica (hipotensão refratária, bradicardia grave)
- Convulsões
- Necessidade de doses repetidas de atropina
- Fasciculações musculares intensas

#### Tratamento:

- **Medidas gerais:**
    
    
    - ABC da reanimação (via aérea, ventilação, circulação)
    - Oxigenoterapia (manter SatO₂ &gt;94%)
    - Monitorização contínua (PA, FC, FR, SatO₂, ECG)
    - Acesso venoso calibroso
    - Aspiração de secreções e posicionamento adequado
    - Proteção de vias aéreas (IOT se Glasgow &lt;8 ou insuficiência respiratória)
    - Hidratação venosa: SF 0,9% ou Ringer Lactato conforme necessidade
    - **Descontaminação gastrointestinal:**
        - Carvão ativado: 1g/kg (máximo 50g) VO ou por SNG se &lt;1 hora da ingesta e paciente com via aérea protegida
        - Lavagem gástrica: não indicada rotineiramente (risco de broncoaspiração)
    - Remover roupas contaminadas e lavar pele com água e sabão se exposição dérmica
- **Antídoto/Tratamento específico:**
    
    
    - **Nome:** Sulfato de Atropina + Pralidoxima (Contrathion®)
    - **Apresentação:**
        
        
        - Atropina: ampola 0,5mg/mL (1mL) ou 0,25mg/mL (1mL)
        - Pralidoxima: ampola 200mg/10mL ou frasco 1g
    - **Indicações:**
        
        
        - Presença de sinais e sintomas colinérgicos (principalmente broncorreia, bradicardia, miose)
        - Início imediato ao diagnóstico, não aguardar resultado de exames
    - **Dose e administração:**
        
        **ATROPINA (droga de primeira linha):**
        
        
        - **Casos leves/moderados:**
            
            
            - Adultos: 1-2 mg EV em bolus lento, repetir a cada 5 minutos até atropinização
            - Crianças: 0,02-0,05 mg/kg EV (dose mínima 0,1mg), repetir a cada 5 min
        - **Casos graves:**
            
            
            - Adultos: 2-5 mg EV em bolus lento, repetir a cada 5 minutos até atropinização
            - Crianças: 0,05-0,1 mg/kg EV, repetir a cada 5 min
        - **Meta da atropinização:** Secagem de secreções brônquicas (ausência de broncorreia), FC &gt;60 bpm, pupilas midriáticas, PA normalizada. NÃO aguardar midríase para continuar doses.
        - **Manutenção:** Após atropinização, manter com 0,5-1mg EV de 1/1h a 4/4h ou infusão contínua de 0,02-0,08 mg/kg/h
        - **Não há dose máxima de atropina** - guiar pela resposta clínica
        
        **PRALIDOXIMA (oxima - reativador da colinesterase):**
        
        
        - **Indicação adicional:** Casos moderados a graves, principalmente com fasciculações e fraqueza muscular
        - **Adultos:** 1-2 gramas diluídos em 250mL de SF 0,9% ou SG 5%, EV, em 15-30 minutos
        - **Crianças:** 25-50 mg/kg (máximo 2g), mesma diluição
        - **Repetir:** Pode repetir dose a cada 4-6 horas se sintomas persistirem ou em infusão contínua de 250-500mg/h
        - **Início:** Idealmente nas primeiras 24-48h (melhor eficácia), mas pode ser benéfica até 72h
    - **Diluição:**
        
        
        - **Atropina:** Pode ser administrada diretamente EV (bolus lento) ou diluída em 10mL de SF 0,9%
        - **Pralidoxima:** Diluir sempre - 1-2g em 250mL de SF 0,9% ou SG 5%
    - **Prescrição prática:**
        
        
        - `Sulfato de Atropina 0,5mg/mL – 02-10 ampolas EV em bolus lento, repetir de 5/5 min até atropinização`
        - `Pralidoxima 200mg/10mL – 01 frasco (1g) + 250mL SF 0,9%, EV, em 30 min, repetir SN de 4/4h`
        - `Sulfato de Atropina 0,5mg/mL – 01 ampola EV de 2/2h (ou conforme necessidade) para manutenção`
    - **Efeitos adversos do antídoto:**
        
        
        - Atropina: taquicardia, hipertermia, agitação, delirium, retenção urinária, midríase, boca seca, rubor facial (sinais de superdosagem)
        - Pralidoxima: taquicardia, hipertensão transitória, fraqueza muscular (se infusão rápida), tontura, náuseas
    - **Contraindicações:**
        
        
        - Atropina: Hipersensibilidade conhecida (raro), glaucoma de ângulo fechado (relativo em emergências)
        - Pralidoxima: Hipersensibilidade, intoxicação por carbamato puro (controverso - evidências recentes mostram segurança)
        - **Nota:** Em casos graves, benefícios superam riscos mesmo em contraindicações relativas
- **Tratamento de suporte:**
    
    
    - Benzodiazepínicos para controle de convulsões: Diazepam 5-10mg EV ou Midazolam 5mg EV
    - Broncodilatadores se broncoespasmo persistente após atropinização
    - Suporte ventilatório (IOT + VM) se insuficiência respiratória
    - Vasopressores se hipotensão refratária: Noradrenalina 0,1-2,0 mcg/kg/min
    - Controle de temperatura (medidas físicas se hipertermia por atropina)
    - Sonda vesical de demora para controle de diurese
    - Profilaxia de úlceras de estresse: Omeprazol 40mg EV 1x/dia
    - **Não usar:** Aminofilina, morfina, succinilcolina, fenotiazinas, reserpina (potencializam toxicidade)

#### Tempo de observação:

- **Mínimo de 24 horas** para qualquer exposição confirmada ou suspeita
- **Prolongar observação por 48-72 horas** se: 
    - Ingestão de grande quantidade
    - Sintomas graves na admissão
    - Necessidade de doses repetidas de atropina
    - Fasciculações persistentes
    - Insuficiência respiratória
    - Síndrome intermediária (fraqueza muscular que aparece 24-96h após exposição)
- Monitorar sinais de recorrência de sintomas colinérgicos

#### Critérios de alta:

- Ausência de sintomas colinérgicos por pelo menos 24 horas
- Ausência de necessidade de atropina há pelo menos 12 horas
- Gasometria arterial normal
- Função respiratória normal (SatO₂ &gt;94% em ar ambiente, ausência de broncorreia)
- Função cardiovascular estável (FC, PA normais)
- Nível de consciência normal (Glasgow 15)
- Capacidade de deambular sem fraqueza muscular
- Ausência de fasciculações
- Avaliação psiquiátrica realizada se ingestão intencional
- **Alta hospitalar com:**
    - Orientações sobre sinais de alerta
    - Encaminhamento para seguimento ambulatorial
    - Encaminhamento psiquiátrico se tentativa de autoextermínio

#### Observações importantes:

- **Particularidades do manejo:**
    
    
    - Chumbinho é carbamato (inibição reversível da colinesterase), diferente de organofosforados
    - Início de ação muito rápido (15-30 min) e pico em 1-2 horas
    - Efeito anticolinesterásico persiste por 4-12 horas (reversível)
    - Atropina é essencial e pode ser necessária em doses muito altas
    - Pralidoxima: benefício controverso em carbamatos puros, mas recomendada em casos moderados-graves (intoxicações por "chumbinho" frequentemente contêm misturas)
    - Contatar CIATOX regional para suporte: 0800 722 6001 (nacional)
- **Prognóstico:**
    
    
    - Depende da dose ingerida, tempo até tratamento e adequação da atropinização
    - Mortalidade de 4-30% em casos graves
    - Recuperação completa esperada se tratamento adequado e precoce
    - Sequelas raras se sobrevida &gt;72h
- **Complicações tardias a monitorar:**
    
    
    - Síndrome intermediária (24-96h): fraqueza de musculatura respiratória, cervical, proximal de membros - pode necessitar VM
    - Neuropatia tardia (2-3 semanas): rara em carbamatos
    - Pneumonia aspirativa
    - Rabdomiólise
    - Insuficiência renal aguda
- **Interações relevantes:**
    
    
    - Evitar: bloqueadores neuromusculares despolarizantes (succinilcolina), morfina, fenotiazinas
    - Aminofilina: pode piorar convulsões
    - Betabloqueadores e bloqueadores de canal de cálcio: podem piorar bradicardia
- **Ajustes em populações especiais:**
    
    
    - **Gestantes:** Tratamento igual, benefícios superam riscos. Atropina e pralidoxima são seguras. Monitorar vitalidade fetal.
    - **Idosos:** Maior risco de complicações respiratórias, cardiovasculares e neurológicas. Atenção redobrada com atropinização (risco de delirium).
    - **Insuficiência renal/hepática:** Ajustar doses de manutenção de atropina conforme resposta clínica. Aldicarb não requer ajuste significativo.
    - **Crianças:** Mais suscetíveis à toxicidade. Doses por kg de peso. Monitorar temperatura (risco de hipertermia por atropina).

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# Intoxicação por Cocaína

**Classe toxicológica:** Estimulante do Sistema Nervoso Central / Simpatomimético / Alcaloide

**Nomes comerciais/Outros nomes:** Pó, farinha, branquinha, neve, crack (forma fumada), oxi, merla, pasta base

#### Dose tóxica:

- Adultos: Não há dose tóxica bem estabelecida. Doses de 20mg podem causar sintomas em indivíduos sem tolerância. Doses de 1,2g ou superiores são potencialmente letais
- Crianças: Qualquer quantidade pode ser tóxica
- Observações sobre variabilidade individual: Efeitos dependem da via de administração (nasal, EV, fumada), tolerância prévia, uso concomitante de outras substâncias (principalmente álcool), estado cardiovascular prévio e sensibilização à substância. Usuários crônicos podem desenvolver sensibilização, apresentando convulsões com doses anteriormente toleradas

#### Quadro clínico:

- **Sinais e sintomas iniciais (primeiras horas):**
    - Euforia, hiperatividade, desinibição
    - Aumento da autoestima, estimulação sexual
    - Agitação psicomotora, ansiedade
    - Descarga adrenérgica: taquicardia, hipertensão arterial, sudorese, vermelhidão facial
    - Midríase (pupilas dilatadas)
    - Hipertermia
    - Diminuição da necessidade de sono, anorexia
    - Disforia, irritabilidade, agressividade
    - Ideação paranoide, delírio persecutório
    - Confusão mental
    - Dor torácica (isquemia miocárdica)
- **Sinais e sintomas tardios:**
    - Convulsões (não dose-dependente)
    - Isquemia/infarto agudo do miocárdio
    - Arritmias cardíacas (taquicardia ventricular, fibrilação ventricular)
    - Acidente vascular cerebral (isquêmico ou hemorrágico)
    - Hipertermia maligna
    - Rabdomiólise
    - Acidose metabólica
    - Coagulação intravascular disseminada (CIVD)
    - Insuficiência renal aguda
    - Edema agudo de pulmão
    - Estados maniformes ou psicóticos
- **Achados ao exame físico:**
    - Taquicardia, hipertensão arterial
    - Pupilas midriáticas
    - Pele quente, sudorese profusa
    - Hiperreflexia, tremores
    - Agitação psicomotora intensa
    - Alteração do nível de consciência (nos casos graves)
    - Rigidez muscular (casos com hipertermia)

#### Exames complementares indicados:

- **Avaliação inicial:**
    - Eletrocardiograma (ECG) - procurar sinais de isquemia, alterações de ST-T, arritmias
    - Troponina cardíaca (dosagem seriada se dor torácica ou alterações eletrocardiográficas)
    - Hemograma completo
    - Glicemia
- **Avaliação de complicações:**
    - Ureia, creatinina, eletrólitos (Na, K, Ca, Mg)
    - Creatinofosfoquinase (CPK) - rastreio de rabdomiólise
    - Gasometria arterial - avaliar acidose metabólica
    - Exame de urina tipo I (EAS) - avaliar mioglobinúria
    - Lactato sérico
    - Coagulograma (se suspeita de CIVD)
    - Transaminases hepáticas (TGO, TGP)
- **Exames de imagem quando indicados:**
    - Tomografia computadorizada de crânio (se alteração neurológica focal, convulsões ou TCE)
    - Radiografia de tórax (se sintomas respiratórios ou suspeita de edema pulmonar)
- **Timing:**
    - ECG e troponina na admissão e repetir troponina em 3-6h se dor torácica
    - CPK na admissão e repetir se valor inicial elevado ou sintomas de rabdomiólise

#### Critérios de internação:

- Alterações eletrocardiográficas sugestivas de isquemia miocárdica
- Troponina elevada
- Dor torácica persistente ou recorrente
- Arritmias cardíacas
- Hipertensão arterial grave refratária ao tratamento inicial
- Convulsões (especialmente se recorrentes)
- Alteração do nível de consciência
- Hipertermia (temperatura axilar &gt; 38,5°C)
- Sinais de rabdomiólise (CPK &gt; 5.000 U/L ou em elevação)
- Insuficiência renal aguda
- Acidose metabólica grave
- Agitação psicomotora grave refratária ao tratamento
- Sintomas psicóticos intensos
- Ideação suicida ou comportamento autodestrutivo
- **Critérios para UTI:**
    - Síndrome coronariana aguda com instabilidade hemodinâmica
    - Arritmias malignas
    - Convulsões de difícil controle
    - Hipertermia grave (&gt; 40°C)
    - Rabdomiólise severa com risco de insuficiência renal
    - Necessidade de sedação profunda/intubação orotraqueal
    - Instabilidade hemodinâmica

#### Tratamento:

- **Medidas gerais:**
    
    
    - ABCDE: avaliar vias aéreas, respiração, circulação
    - Monitorização contínua: PA, FC, ECG, temperatura, saturação de O₂
    - Acesso venoso calibroso
    - Oxigenioterapia se saturação &lt; 92%
    - Ambiente calmo, com poucos estímulos (luz baixa, ruídos mínimos)
    - Contenção física apenas se absolutamente necessária (risco de agitação e arritmias)
    - Hidratação venosa com solução fisiológica 0,9%
    - Resfriamento em casos de hipertermia (compressas frias, ventiladores)
    - Não há indicação de descontaminação gastrointestinal (lavagem gástrica ou carvão ativado) pois as vias de uso são nasal, EV ou inalatória
- **Antídoto/Tratamento específico:**
    
    
    - **Não existe antídoto específico para intoxicação por cocaína**
    - O tratamento é sintomático e de suporte
- **Tratamento de suporte:**
    
    **Para agitação/ansiedade:**
    
    
    - **Primeira linha - Benzodiazepínicos:**
        - **Diazepam 10mg/2mL (5mg/mL) - 02 ampolas + SF0,9% 96mL, EV lento em 3-5 minutos** (dose total: 10-20mg)
        - OU **Midazolam 15mg/3mL (5mg/mL) - 01 ampola (5-7,5mg), EV lento** ou **Midazolam 15mg/3mL (5mg/mL) - 01 ampola, IM**
        - OU **Lorazepam 4mg/1mL - 01 ampola (2-4mg), EV lento**
        - Podem ser repetidos conforme necessidade
    
    **Para agitação grave refratária a benzodiazepínicos:**
    
    
    - **Haloperidol 5mg/1mL - 01 ampola, IM** (evitar via EV pelo risco de prolongamento do intervalo QT)
    - Considerar associação: benzodiazepínicos + antipsicótico
    - **EVITAR uso isolado de haloperidol** - preferir associação com benzodiazepínico
    - **NUNCA usar flumazenil** em pacientes intoxicados por cocaína (aumenta risco de convulsões)
    
    **Para hipertensão arterial:**
    
    
    - Primeira linha: Benzodiazepínicos (o controle da agitação frequentemente normaliza a PA)
    - Se refratário: 
        - **Nitroprussiato de sódio** em BIC (preferencial em emergências hipertensivas)
        - OU **Nitroglicerina 25mg/5mL (5mg/mL) - 01 ampola + SF0,9% 245mL, EV em BIC**, iniciar com 5mL/h e titular conforme PA
    - **EVITAR betabloqueadores** (risco de vasoconstrição paradoxal e piora da hipertensão por efeito alfa-adrenérgico não antagonizado)
    
    **Para dor torácica/isquemia miocárdica:**
    
    
    - Benzodiazepínicos (primeira linha)
    - **Nitroglicerina sublingual 5mg - 01 comprimido** (pode repetir até 3x com intervalo de 5 minutos)
    - OU **Nitroglicerina 25mg/5mL (5mg/mL) - diluir em SF0,9%, EV em BIC**
    - **AAS 200mg - mastigar 01 comprimido** (se síndrome coronariana aguda)
    - **EVITAR betabloqueadores** mesmo em IAM por cocaína
    - Considerar bloqueadores de canais de cálcio (Diltiazem)
    - Encaminhar para estratificação invasiva se síndrome coronariana aguda confirmada
    
    **Para convulsões:**
    
    
    - **Diazepam 10mg/2mL (5mg/mL) - 02 ampolas, EV lento** (dose: 10-20mg)
    - OU **Midazolam 15mg/3mL (5mg/mL) - 01-02 ampolas (7,5-15mg), EV**
    - Repetir se necessário até controle das convulsões
    
    **Para hipertermia:**
    
    
    - Medidas físicas de resfriamento: compressas frias, ventiladores, ambiente refrigerado
    - Benzodiazepínicos (reduzem atividade muscular)
    - Hidratação venosa vigorosa
    - Se temperatura &gt; 40°C e refratária: considerar sedação e medidas de resfriamento intensivo
    
    **Para rabdomiólise (CPK &gt; 5.000 U/L):**
    
    
    - **Hidratação venosa agressiva:**
        - **SF 0,9% 1.000-2.000mL/h EV** (ajustar conforme débito urinário e sinais de congestão)
        - Meta: débito urinário &gt; 200-300 mL/h
    - **Alcalinização urinária (se pH &lt; 7,5 e bicarbonato &lt; 30 mEq/L):**
        - **Bicarbonato de sódio 8,4% 150mL + SG5% 850mL - correr 200mL/h em BIC**
        - Objetivo: manter pH urinário &gt; 6,5
        - Monitorar cálcio sérico de 2/2h
    - Monitorar função renal, eletrólitos, CPK seriada
    - Considerar hemodiálise se insuficiência renal estabelecida
    
    **Para sintomas psicóticos/delírio:**
    
    
    - Benzodiazepínicos (primeira linha)
    - Se refratário: **Haloperidol 5mg/1mL - 01 ampola, IM** associado a benzodiazepínico

#### Tempo de observação:

- **Mínimo de 6 horas** para pacientes sintomáticos com intoxicação leve sem complicações
- **Mínimo de 12-24 horas** se: 
    - Dor torácica (devido à meia-vida curta da cocaína de 1-2h, mas risco de isquemia tardia)
    - Alterações eletrocardiográficas
    - Agitação importante que necessitou medicação
    - Sintomas psicóticos
    - Hipertensão persistente
- **24-48 horas ou mais** se: 
    - Troponina elevada
    - Arritmias
    - Convulsões
    - Hipertermia
    - CPK elevada
- A observação deve ser prolongada se houver uso concomitante de outras substâncias ou se sintomas persistirem

#### Critérios de alta:

- Paciente assintomático e estável hemodinamicamente por pelo menos 6 horas
- Ausência de alterações eletrocardiográficas isquêmicas
- Troponina normal em dosagens seriadas (se realizada)
- Ausência de arritmias cardíacas
- Pressão arterial controlada sem necessidade de medicação EV
- Ausência de sintomas psicóticos ou agitação
- Temperatura normal
- CPK normal ou em queda se previamente elevada
- Função renal preservada
- Paciente lúcido, orientado e cooperativo
- Rede de suporte adequada no domicílio
- **Orientações pós-alta:**
    - Retornar ao serviço se dor torácica, palpitações, dispneia, alterações neurológicas
    - Encaminhamento para seguimento em serviço de saúde mental/CAPS-AD
    - Orientações sobre riscos do uso de cocaína
    - Encaminhar para cardiologia se houve manifestações cardíacas

#### Observações importantes:

- **Particularidades do manejo:**
    - A intoxicação por cocaína é autolimitada, com meia-vida de 1-2 horas
    - Uso concomitante de álcool e cocaína forma cocaetileno, que potencializa efeitos cardiotóxicos e prolonga a intoxicação
    - Poliusuários (associação com outras drogas) são muito frequentes
    - O risco de complicações cardiovasculares não está relacionado à dose, mas à susceptibilidade individual
    - Fenômeno de sensibilização: usuários crônicos podem desenvolver convulsões com doses antes toleradas
    - Evitar betabloqueadores em TODAS as situações (risco de vasoconstrição coronariana paradoxal)
    - Evitar flumazenil (aumenta risco de convulsões)
    - Benzodiazepínicos são a base do tratamento sintomático
- **Prognóstico:**
    - Geralmente bom se tratamento adequado e ausência de complicações graves
    - Mortalidade relacionada principalmente a: IAM, arritmias malignas, AVC, hipertermia grave, convulsões prolongadas
    - Sequelas neurológicas podem ocorrer em casos de AVC ou hipóxia prolongada
- **Complicações tardias a monitorar:**
    - Síndrome coronariana aguda pode ocorrer até 24h após o uso
    - Cardiomiopatia induzida por cocaína (uso crônico)
    - Miocardite
    - Dissecção aórtica
    - AVC (isquêmico ou hemorrágico)
    - Perfuração do septo nasal (uso crônico intranasal)
    - Pneumotórax, pneumomediastino (uso de crack)
- **Interações relevantes:**
    - Álcool + cocaína = cocaetileno (maior cardiotoxicidade)
    - Antidepressivos tricíclicos + cocaína (risco de arritmias)
    - IMAO + cocaína (risco de crise hipertensiva grave)
    - Outras drogas estimulantes (potencialização dos efeitos)
- **Ajustes em populações especiais:**
    - **Gestantes:** Risco de descolamento prematuro de placenta, abortamento, sofrimento fetal. Tratamento similar, evitar betabloqueadores. Monitorização fetal se viável
    - **Idosos:** Maior risco de complicações cardiovasculares. Reduzir doses de benzodiazepínicos
    - **Insuficiência renal:** Atenção especial à hidratação e prevenção de rabdomiólise. Ajustar doses de medicações eliminadas por via renal
    - **Insuficiência hepática:** Cuidado com sedação excessiva por benzodiazepínicos. Monitorar função hepática
    - **Cardiopatas:** Maior risco de eventos cardiovasculares graves. Considerar internação mesmo em casos leves
- **Contato com CIATox:** Sempre considerar contato com o Centro de Informação e Assistência Toxicológica (0800 014 1212 ou verificar CIATox regional) para auxílio na condução do caso

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# Intoxicação por Metanol

**Classe toxicológica:** Álcool tóxico/Solvente industrial

**Nomes comerciais/Outros nomes:** Álcool metílico, álcool de madeira. Encontrado como adulterante em bebidas alcoólicas artesanais ou clandestinas.

#### Dose tóxica:

- **Adultos:**
    - Dose tóxica mínima: 0,3-1 g/kg (aproximadamente 30-100 mL em adulto de 70 kg)
    - Dose potencialmente fatal: 1-2 g/kg (100-200 mL)
- **Crianças:**
    - Qualquer quantidade é potencialmente grave
    - Dose fatal: 10-30 mL
- **Observações:** A toxicidade é altamente variável. A ingestão concomitante de etanol prolonga o período de latência e pode mascarar sintomas iniciais, mas não previne toxicidade tardia.

#### Quadro clínico:

- **Sinais e sintomas iniciais (6-30 horas):**
    - Sintomas inespecíficos de embriaguez
    - Náuseas, vômitos
    - Dor abdominal e epigástrica
    - Cefaleia
    - Tontura e vertigem
    - Possível melhora clínica aparente ("intervalo lúcido")
- **Sinais e sintomas tardios (12-48 horas):**
    - Alterações visuais: visão turva/borrada, fotofobia, "visão de nevasca" (campo nevado), escotomas, diplopia
    - Redução da acuidade visual até cegueira
    - Confusão mental progressiva
    - Convulsões
    - Rebaixamento do nível de consciência até coma
    - Taquipneia (respiração de Kussmaul)
    - Insuficiência renal aguda
    - Pancreatite aguda
    - Morte
- **Achados ao exame físico:**
    - Hiperemia de disco óptico ao fundo de olho (tardio)
    - Midríase com resposta pupilar lentificada
    - Taquipneia compensatória (acidose)
    - Taquicardia ou bradicardia
    - Hipotensão arterial (casos graves)
    - Sinais de desidratação
    - Rebaixamento do nível de consciência
    - Atrofia óptica (sequela permanente)

#### Exames complementares indicados:

- **Imediatos:**
    - Gasometria arterial (repetir a cada 2-4 horas)
    - Eletrólitos completos (Na⁺, K⁺, Cl⁻, HCO₃⁻)
    - Ureia e creatinina
    - Glicemia
    - Osmolaridade sérica medida
    - Cálculo do ânion gap: \[Na⁺\] - (\[Cl⁻\] + \[HCO₃⁻\]) – normal: 8-16 mEq/L
    - Cálculo do gap osmolar: Osmolaridade medida - Osmolaridade calculada 
        - Osmolaridade calculada = 2 × \[Na⁺\] + \[Glicose\]/18 + \[Ureia\]/6
        - Gap osmolar &gt; 10 mOsm/L sugere presença de osmol não medido (metanol)
- **Complementares:**
    - Hemograma completo
    - Função hepática (TGO, TGP, bilirrubinas)
    - Amilase e lipase
    - Lactato sérico
    - ECG de 12 derivações (repetir se alterações)
    - Dosagem sérica de metanol (quando disponível) – tóxica: &gt; 200 mg/L
    - Dosagem de etanol sérico (se disponível) – para monitorar terapia
- **Timing:** Gasometria e eletrólitos a cada 2-4 horas até estabilização do pH e do ânion gap.

#### Critérios de internação:

- **Internação obrigatória (todos os casos suspeitos ou confirmados):**
    - História de ingestão de bebida alcoólica com sintomas compatíveis após 12 horas
    - Qualquer alteração visual relacionada ao evento
    - Acidose metabólica com ânion gap elevado (&gt; 16 mEq/L) sem outra causa
    - Gap osmolar &gt; 10 mOsm/L
    - pH arterial &lt; 7,35
    - Bicarbonato &lt; 20 mEq/L
    - Sintomas neurológicos (confusão, convulsões, rebaixamento de consciência)
    - Dosagem de metanol &gt; 200 mg/L
- **Critérios para UTI:**
    - pH arterial &lt; 7,25
    - Rebaixamento do nível de consciência (Glasgow &lt; 13)
    - Convulsões
    - Instabilidade hemodinâmica
    - Necessidade de hemodiálise
    - Insuficiência renal aguda
    - Alterações visuais graves

#### Tratamento:

- **Medidas gerais:**
    
    
    - Garantir via aérea pérvia e suporte ventilatório (intubação orotraqueal se Glasgow &lt; 8)
    - Acesso venoso calibroso (2 acessos periféricos)
    - Monitorização contínua: FC, PA, FR, SatO₂, ECG, glicemia capilar
    - Monitorar pupilas e acuidade visual a cada 2-4 horas
    - Hidratação venosa: SF 0,9% 1000-2000 mL para manter diurese &gt; 0,5 mL/kg/h
    - **Não realizar:** Lavagem gástrica (ineficaz após absorção)
    - **Não realizar:** Carvão ativado (não adsorve metanol)
    - Sonda nasoenteral (SNE) para administração de etanol
    - Sonda vesical de demora para controle de diurese
- **Antídoto/Tratamento específico:**
    
    **FOMEPIZOL (Antídoto de primeira escolha - quando disponível)**
    
    
    - **Nome:** Fomepizol (4-metilpirazol)
    - **Apresentação:** Frasco-ampola de 1,5 g/1,5 mL (concentração: 1 g/mL) 
        - Suspeita clínica forte de intoxicação por metanol
        - Ingestão &gt; 0,4 g/kg (aproximadamente 30 mL em adulto)
        - pH &lt; 7,3
        - Ânion gap &gt; 16 mEq/L
        - Gap osmolar &gt; 10 mOsm/L
        - Dosagem de metanol ≥ 20 mg/dL (200 mg/L)
        - Qualquer alteração visual
        - **Não aguardar confirmação laboratorial** se suspeita alta
    - **Vantagens sobre etanol:** Não causa embriaguez, não requer monitorização de níveis séricos, administração mais simples, menos efeitos adversos
    - **Dose e administração:**
        - **Dose de ataque:** 15 mg/kg IV
        - **Dose de manutenção:**
            - 10 mg/kg IV a cada 12 horas (por 4 doses)
            - Após 4 doses: aumentar para 15 mg/kg IV a cada 12 horas
        - **Durante hemodiálise:** Administrar a cada 4 horas (fomepizol é dialisável)
        - **Tempo de infusão:** 30 minutos
    - **Diluição:**
        - Diluir em SF 0,9% ou SG 5%
        - Concentração máxima: 25 mg/mL
        - Volume mínimo de diluição: 100 mL
    - **Prescrição prática (paciente de 60 kg):**
        - `FOMEPIZOL 1,5 g/1,5 mL – Diluir 01 frasco-ampola (900 mg = 0,9 mL) + SF 0,9% 100 mL, EV, em 30 minutos – DOSE DE ATAQUE`
        - `FOMEPIZOL 1,5 g/1,5 mL – Diluir 01 frasco-ampola (600 mg = 0,6 mL) + SF 0,9% 100 mL, EV, em 30 minutos, a cada 12 horas – MANUTENÇÃO (4 doses)`
        - `FOMEPIZOL 1,5 g/1,5 mL – Diluir 01 frasco-ampola (900 mg = 0,9 mL) + SF 0,9% 100 mL, EV, em 30 minutos, a cada 12 horas – MANUTENÇÃO (após 4ª dose)`
        - `Durante HD: FOMEPIZOL 1,5 g/1,5 mL – Diluir 01 frasco-ampola (900 mg = 0,9 mL) + SF 0,9% 100 mL, EV, em 30 minutos, a cada 4 horas`
    - **Duração do tratamento:**
        - Até metanolemia &lt; 20 mg/dL (200 mg/L)
        - E resolução da acidose metabólica (pH &gt; 7,30)
        - E ausência de sintomas
    - **Efeitos adversos:**
        - Cefaleia (leve a moderada)
        - Náuseas
        - Tontura
        - Reações no local da infusão (flebite)
        - Erupção cutânea (raro)
        - Eosinofilia (raro)
    - **Contraindicações:**
        - Hipersensibilidade conhecida ao fomepizol ou outros pirazóis
        - Gravidez (usar apenas se benefício superar risco)
    - **Monitorização durante tratamento com fomepizol:**
        - Gasometria arterial a cada 2-4 horas
        - Eletrólitos a cada 4-6 horas
        - Função renal diária
        - Dosagem de metanol (se disponível) a cada 12-24 horas
        - **Não é necessário** monitorar níveis de fomepizol
    
    ---
    
    **ETANOL (Alternativa quando fomepizol indisponível)**
    
    
    - **Nome:** Etanol farmacêutico (ou vodka 40% via sonda nasoenteral)
    - **Apresentação:**
        - Etanol farmacêutico: Solução para infusão IV 5% ou 10%
        - Alternativa: Vodka 40% (via sonda nasoenteral)
    - **Indicações:**
        - Mesmas do fomepizol (quando este não estiver disponível)
        - **Não aguardar confirmação laboratorial** se suspeita alta
    - **Dose e administração:**
        - **Adultos (via SNE – Vodka 40% diluída):**
            - Preparar solução a 20%: Diluir vodka 40% em água 1:1 (ex: 100 mL vodka + 100 mL água)
            - **Dose de ataque:** 0,8 g/kg 
                - Cálculo (paciente 70 kg): 70 × 0,8 = 56 g de etanol
                - Volume da solução 20% (densidade 0,16 g/mL): 56 ÷ 0,16 = 350 mL
            - **Dose de manutenção:** 0,1-0,2 g/kg/h (média: 0,15 g/kg/h) 
                - Cálculo (paciente 70 kg): 70 × 0,15 = 10,5 g/h
                - Volume/hora da solução 20%: 10,5 ÷ 0,16 = 66 mL/h
            - **Durante hemodiálise:** Aumentar para 0,25-0,35 g/kg/h (metanol e etanol são dialisáveis) 
                - Cálculo (paciente 70 kg): 70 × 0,3 = 21 g/h
                - Volume/hora: 21 ÷ 0,16 = 131 mL/h
        - **Crianças:**
            - Mesmas doses proporcionais ao peso
            - Preferir etanol IV se disponível
    - **Diluição:**
        - Via SNE: Vodka 40% diluída 1:1 com água destilada ou filtrada (solução final a 20%)
        - Via IV (se etanol farmacêutico disponível): Solução de etanol 5-10% em SF 0,9% ou SG 5%
    - **Prescrição prática:**
        - `ETANOL (Vodka 40%) – Diluir 200 mL de vodka + 200 mL de água = 400 mL de solução final a 20%`
        - `Dose de ataque: Administrar 350 mL (para paciente de 70 kg) via SNE, em 30-60 minutos`
        - `Dose de manutenção: Infundir 66 mL/h (para paciente de 70 kg) via SNE em bomba de infusão`
        - `Ajustar dose conforme etanolemia (alvo: 100-150 mg/dL) ou resposta clínica`
        - `Durante hemodiálise: Aumentar para 131 mL/h (para paciente de 70 kg)`
    - **Objetivo terapêutico:**
        - Manter etanolemia entre 100-150 mg/dL (quando dosagem disponível)
        - Manter por no mínimo 48-72 horas ou até metanolemia &lt; 200 mg/L
    - **Efeitos adversos do antídoto:**
        - Embriaguez
        - Hipoglicemia (especialmente em crianças)
        - Depressão respiratória
        - Gastrite
        - Hepatotoxicidade (uso prolongado)
        - Flebite (etanol IV)
    - **Contraindicações:**
        - Relativas (benefício supera risco): 
            - Hepatopatia grave
            - Pancreatite aguda
            - Gravidez (usar com cautela)
    - **Monitorização durante o tratamento:**
        - Gasometria arterial a cada 2-4 horas
        - Glicemia capilar a cada 2 horas
        - Etanolemia (se disponível) a cada 6-12 horas
        - Função renal diária
- **Tratamento de suporte:**
    
    
    - **Correção da acidose metabólica:**
        
        
        - `Bicarbonato de Sódio 8,4% 10 mEq/10 mL – Diluir 03 ampolas (30 mL) + SF 0,9% 120 mL, EV`
        - Dose de ataque (se pH &lt; 7,15): 1-2 mEq/kg IV em bolus (ex: 2-3 ampolas para adulto 70 kg)
        - Manutenção: 150 mEq de NaHCO₃ em 850 mL de SG 5%, correr a 150-200 mL/h
        - Alvo: pH &gt; 7,25-7,30
        - Ajustar conforme gasometrias seriadas
    - **Ácido folínico (Leucovorin):**
        
        
        - `Ácido Folínico 50 mg – 01 frasco-ampola + SF 0,9% 100 mL, EV, em 30 minutos, a cada 6 horas`
        - Dose: 30-50 mg IV a cada 6 horas por 48 horas
        - Função: Cofator para metabolização do ácido fórmico
    - **Controle de convulsões:**
        
        
        - 1ª linha: `Midazolam 5 mg/mL – 02 ampolas (10 mg) + SF 0,9% 80 mL, EV, em 2-5 minutos`
        - Alternativa: `Diazepam 10 mg/2 mL – 02 ampolas (20 mg), EV, lento`
        - 2ª linha (se refratário): `Fenitoína 250 mg/5 mL – 04 ampolas (1000 mg) + SF 0,9% 250 mL, EV, em 30 minutos` ou fenobarbital
    - **Hipoglicemia:**
        
        
        - `Glicose 50% 10 mL – 02 ampolas (20 mL), EV, em bolus`
        - Reavaliar glicemia capilar após 15 minutos
    - **Suporte hemodinâmico:**
        
        
        - Reposição volêmica agressiva
        - Vasopressores se necessário: `Noradrenalina 4 mg/4 mL – 05 ampolas + SF 0,9% 226 mL, EV em BIC`
    - **Hemodiálise:**
        
        
        - **Indicações absolutas:**
            - Nível sérico de metanol &gt; 500 mg/L
            - Acidose metabólica severa (pH &lt; 7,25) refratária a bicarbonato
            - Insuficiência renal aguda com oligúria
            - Alterações visuais persistentes
            - Alterações neurológicas graves (coma, convulsões refratárias)
            - Deterioração clínica progressiva apesar do tratamento
        - Duração: Até metanolemia &lt; 200 mg/L e resolução da acidose
        - **Atenção:** Aumentar dose de etanol durante diálise (ambos são removidos)
        - Contatar nefrologia imediatamente se critérios presentes

#### Tempo de observação:

- **Mínimo:** 24-48 horas para todos os casos suspeitos, mesmo assintomáticos
- **Prolongar observação se:**
    - Ingestão &gt; 0,5 g/kg (&gt; 40 mL)
    - Ingestão concomitante significativa de etanol (aumenta latência)
    - Qualquer alteração em exames laboratoriais
    - Desenvolvimento de sintomas, mesmo leves
    - Gap osmolar &gt; 10 mOsm/L ou ânion gap &gt; 16 mEq/L
- **Internação até:** Resolução completa da acidose, normalização do gap osmolar e do ânion gap, ausência de sintomas por pelo menos 24 horas

#### Critérios de alta:

- **Todos os critérios devem estar presentes:**
    - Assintomático por pelo menos 24 horas
    - pH arterial &gt; 7,35
    - Bicarbonato &gt; 22 mEq/L
    - Ânion gap normalizado (&lt; 16 mEq/L)
    - Gap osmolar normalizado (&lt; 10 mOsm/L)
    - Função renal normal ou estável
    - Ausência de alterações visuais
    - Glasgow 15
    - Dosagem de metanol &lt; 200 mg/L (se disponível)
    - Avaliação oftalmológica normal ou programada
- **Orientações pós-alta:**
    - Retorno em 7 dias para avaliação oftalmológica (fundo de olho)
    - Retorno imediato se: alterações visuais, confusão mental, vômitos persistentes
    - Abstinência alcoólica absoluta por pelo menos 30 dias
    - Evitar consumo de bebidas alcoólicas de origem desconhecida
    - Acompanhamento ambulatorial com toxicologia/clínica médica

#### Observações importantes:

- **Particularidades do manejo:**
    - O período de latência pode ser enganoso: paciente aparentemente "recuperado" pode deteriorar drasticamente após 12-24 horas
    - A ingestão concomitante de etanol (comum em festas/eventos) PROLONGA o período de latência, mas NÃO protege contra toxicidade tardia
    - O ânion gap pode ser NORMAL nas primeiras horas – não descartar intoxicação precocemente
    - O gap osmolar diminui à medida que o metanol é metabolizado, mas a acidose piora
    - **Fomepizol vs Etanol:**
        - Fomepizol é primeira escolha (mais seguro, mais fácil)
        - Etanol é alternativa eficaz quando fomepizol indisponível
        - Não administrar ambos simultaneamente
    - Se usar etanol: deve ser mantido continuamente durante todo o tratamento – interrupções permitem metabolização do metanol
    - Durante hemodiálise: ajustar frequência do antídoto (fomepizol a cada 4h; etanol aumentar dose)
- **Prognóstico:**
    - A cegueira pode ser IRREVERSÍVEL se tratamento não for iniciado precocemente
    - Atrofia do nervo óptico é sequela permanente comum
    - Mortalidade: 10-30% em casos graves sem tratamento adequado
    - Mortalidade &lt; 5% com tratamento precoce e hemodiálise
- **Complicações tardias a monitorar:**
    - Cegueira permanente (atrofia óptica)
    - Parkinsonismo secundário (lesões em núcleos da base)
    - Neuropatia periférica
    - Insuficiência renal crônica
    - Sequelas cognitivas
    - Pancreatite crônica
- **Interações relevantes:**
    - Inibidores da álcool desidrogenase prolongam período de latência
    - Outros álcoois competem pela mesma enzima
    - Etanol é o tratamento de escolha na ausência de fomepizol
- **Ajustes em populações especiais:**
    - **Gestantes:**
        - Fomepizol é preferível ao etanol (categoria C vs D)
        - Etanol é categoria D, mas risco-benefício favorece uso em intoxicação grave se fomepizol indisponível
        - Monitorar vitalidade fetal
        - Hemodiálise preferencial
    - **Idosos:**
        - Preferir fomepizol (evita efeitos do etanol)
        - Se usar etanol: ajustar doses pela função renal, maior risco de hipoglicemia e depressão respiratória
    - **Insuficiência renal:** Hemodiálise precoce. Ajustar dose de bicarbonato. Fomepizol e etanol não necessitam ajuste de dose (mas aumentar frequência durante HD).
    - **Insuficiência hepática:** Fomepizol é preferível ao etanol. Se usar etanol: cautela extrema.
    - **Crianças:**
        - Fomepizol: mesmas doses por kg
        - Etanol: maior risco de hipoglicemia. Monitorar glicemia capilar a cada hora. Preferir etanol IV quando possível.
- **Notificação obrigatória:**
    - Todos os casos suspeitos e confirmados são de NOTIFICAÇÃO IMEDIATA
    - Notificar ao CIEVS municipal/estadual/nacional via: 
        - Disque-notifica: 0800-644-6645
        - Disque-Intoxicação Anvisa: 0800-722-6001
    - Preencher Ficha de Intoxicação Exógena no SINAN
    - Classificar como "Evento de Saúde Pública (ESP)"
    - CID: T51.1 - Efeito tóxico do metanol
- **Suporte de CIATox:**
    - Contatar Centro de Informação e Assistência Toxicológica local para orientação de manejo
    - Disponível 24 horas
    - [Clique aqui](https://upatodate.com/books/intoxicacao-exogena/page/centro-de-informacao-e-assistencia-toxicologica-ciatox) para consultar os contatos do CIATox

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