Hiperglicemia HIPERGLICEMIA Guia prático para manejo de hiperglicemia no pronto-socorro: hidratação, insulinoterapia, correção eletrolítica. Aborda desde hiperglicemia simples até cetoacidose diabética e estado hiperosmolar. Paciente típico: Paciente diabético, 45-65 anos, com glicemia >250mg/dL, poliúria, polidipsia, fadiga. Pode apresentar desde hiperglicemia isolada até quadros graves como cetoacidose diabética (náuseas, vômitos, dor abdominal, taquipneia) ou estado hiperosmolar (rebaixamento do nível de consciência, desidratação grave).   🩺 Guia rápido ℹ️ Clique nos tópicos abaixo para ver detalhes História clínica típica # História Clínica Paciente diabético, apresenta quadro de poliúria e polidipsia há ❓ dias, associado a fadiga, perda ponderal de ❓ kg e visão turva. Relata falta de adesão ao tratamento medicamentoso há ❓ semanas. Nega febre, dor torácica ou dispneia. Em casos graves: náuseas, vômitos há ❓ dias, dor abdominal difusa, confusão mental. Comorbidades: DM tipo ❓ há ❓ anos, HAS. Medicações em uso: ❓ (insulina/hipoglicemiante oral). Alergias: nega. # Exame físico REG/BEG, desidratado (+/++/+++), mucosas secas, turgor cutâneo diminuído. PA: ❓ mmHg | FC: ❓ bpm (taquicardia comum) | FR: ❓ irpm (taquipneia se CAD) | Tax: ❓°C | Sat O2: ❓% | HGT: ❓ mg/dL (geralmente >250mg/dL). Hálito cetônico (se CAD). Respiração de Kussmaul (se acidose metabólica grave). ACV: bulhas rítmicas normofonéticas, sem sopros. AR: murmúrio vesicular presente bilateralmente, sem ruídos adventícios. Abd: plano, flácido, indolor à palpação, RHA+. Neuro: consciente e orientado (ou confuso/sonolento se grave), Glasgow ❓, sem déficits focais. # HD - Hiperglicemia (especificar: leve/moderada/grave) - Cetoacidose diabética (se pH <7,3, HCO3 <18, cetose) - Estado hiperglicêmico hiperosmolar (se osmolaridade >320, sem cetose significativa) - Diabetes mellitus descompensado # Conduta - Classificação de risco: avaliar se CAD/EHH (AMARELO/VERMELHO) ou hiperglicemia simples (VERDE/AMARELO) - Acesso venoso calibroso - Coleta de exames: gasometria arterial, hemograma, função renal, eletrólitos (Na, K, Cl), glicemia, EAS, Rx tórax - Hidratação venosa vigorosa (SF 0,9%) - Insulinoterapia se indicado (glicemia >250mg/dL com sintomas ou CAD/EHH) - Correção de distúrbios eletrolíticos (principalmente potássio) - Investigar e tratar fator desencadeante (infecção, IAM, AVC, não adesão) - Monitorização contínua e HGT 1/1h - Internação hospitalar se CAD/EHH ou descompensação grave - Alta com ajuste de tratamento ambulatorial se hiperglicemia leve e paciente estável Prescrição para paciente típico No pronto-socorro: CENÁRIO 1: Hiperglicemia leve a moderada (250-400 mg/dL) sem CAD/EHH 01. Soro Fisiológico 0,9% 500 mL, EV, em 1 hora 02. Insulina Regular 100 UI/mL – 0,1 UI/kg (❓ UI), SC, dose única 03. Glicemia capilar 1/1h – reavaliar necessidade de nova dose # Orientações - Reavaliar após 2-4 horas - Se HGT persistir >250mg/dL: considerar nova dose de insulina ou internação - Investigar fator desencadeante CENÁRIO 2: Cetoacidose diabética ou Estado hiperosmolar 01. Dieta oral ZERO 02. Soro Fisiológico 0,9% 1500 mL, EV, em 1 hora 03. Soro Fisiológico 0,9% 500 mL/h, EV – iniciar após item 2 04. Monitorização contínua 05. Glicemia capilar de 1/1h # Aguardar exames laboratoriais para ajuste de prescrição # Após resultados laboratoriais: 06. Insulina Regular 100 UI (1mL) + SF 0,9% 99mL = 100mL Infundir 0,1 UI/kg/h em bomba de infusão contínua (paciente 70kg = 7mL/h) 07. Reposição de potássio (se K entre 3,3-5,0 mEq/L): KCl 19,1% 10mL em SF 0,9% 1000mL, EV, em 2 horas 08. Bicarbonato de sódio 8,4% (SE pH <7,0): - pH entre 6,9-7,0: HCO3 8,4% 50mL + AD 500mL, EV, em 4h - pH <6,9: HCO3 8,4% 100mL + AD 500mL, EV, em 4h # Ajustes conforme HGT: - Queda >75 mg/dL/h: reduzir insulina pela metade - Queda <50 mg/dL/h: dobrar velocidade de infusão - HGT 200-250mg/dL: iniciar SG 5% concomitante, reduzir insulina para 0,05 UI/kg/h # Internação em UTI ou enfermaria Para casa: OBSERVAÇÃO: Hiperglicemia grave (CAD/EHH) requer internação. Alta apenas para casos leves/moderados estáveis. 01. Insulina NPH ❓ UI ––––––––––– 01 frasco-ampola Aplicar ❓ UI, SC, pela manhã e ❓ UI à noite (ajustar dose conforme orientação) Uso contínuo 02. Metformina 850mg ––––––––––– 60 comprimidos Tomar 01 comprimido, VO, 2 a 3 vezes ao dia, às refeições Uso contínuo OU Glibenclamida 5mg ––––––––––– 30 comprimidos Tomar 01 comprimido, VO, pela manhã, antes do café Uso contínuo 03. Orientações sobre dieta, atividade física e adesão ao tratamento   🏥 NO PRONTO-SOCORRO ⚠️ MANEJO E CUIDADOS INICIAIS Classificação de risco: Hiperglicemia >600mg/dL, sinais de CAD/EHH, alteração do nível de consciência = VERMELHO. Hiperglicemia 250-600mg/dL sintomática = AMARELO. Hiperglicemia assintomática <400mg/dL = VERDE Avaliar gravidade: Diferenciar hiperglicemia simples de CAD (pH <7,3, cetonemia/cetonúria, HCO3 <18) ou EHH (osmolaridade >320, sem cetose) Exames obrigatórios para CAD/EHH: Gasometria arterial, eletrólitos (Na, K, Cl), função renal, glicemia sérica, hemograma, EAS, Rx tórax Hidratação precoce: Iniciar SF 0,9% 15-20 mL/kg na primeira hora (1000-1500mL). Não aguardar resultados para hidratar NÃO administrar insulina no PS para descompensação crônica assintomática: Encaminhar para APS Sinais de alarme: Rebaixamento do nível de consciência, hipotensão, taquipneia com respiração de Kussmaul, vômitos persistentes, dor abdominal intensa, temperatura <35°C ou >38°C Investigar fator desencadeante: Infecção (ITU, pneumonia), IAM, AVC, pancreatite, uso de corticoides, não adesão ao tratamento   HIDRATAÇÃO VENOSA Prescrição prática: Soro Fisiológico 0,9% 1500 mL, EV, em 1 hora (fase inicial) Soro Fisiológico 0,9% 500 mL/h, EV (após expansão inicial) Ajustar para NaCl 0,45% (SF 0,9% 250mL + água destilada 250mL) se Na corrigido* >150 mEq/L Indicações: Reposição volêmica em todos os casos de hiperglicemia sintomática Correção de desidratação e hiperosmolaridade Essencial antes de iniciar insulinoterapia Cuidados: *Na corrigido = Na medido + 0,016 × (glicose - 100) Volume total nas primeiras 48h: ~100 mL/kg Reduzir velocidade se paciente cardiopata ou com sinais de hipervolemia Monitorizar débito urinário Quando HGT atingir 200-250mg/dL: adicionar SG 5% concomitante ao SF 0,9% para prevenir hipoglicemia   INSULINOTERAPIA – INFUSÃO CONTÍNUA (BIC) Prescrição prática: Insulina Regular 100 UI (1mL) + SF 0,9% 99 mL = 100mL (1 UI/mL) Infundir em bomba: 0,1 UI/kg/h (paciente 70kg = 7 mL/h) Glicemia capilar de 1/1h Alternativas: Insulina Regular 0,1 UI/kg/h, IM ou SC (se não houver bomba) Bolus inicial: 0,1 UI/kg, EV, seguido de infusão contínua (opcional) Indicações: Cetoacidose diabética Estado hiperglicêmico hiperosmolar Hiperglicemia grave refratária (>400mg/dL com sintomas) Apresentações: Insulina Regular 100 UI/mL – frasco 10mL Via(s): 💉 EV (BIC) | 💉 IM | 💉 SC Cuidados: ALVO: Redução de 50-75 mg/dL/h Se queda >75 mg/dL/h: Reduzir infusão pela metade (risco de edema cerebral) Se queda <50 mg/dL/h: Dobrar velocidade de infusão Trocar solução de insulina a cada 6 horas (perda de eficácia) Quando HGT 200-250mg/dL: iniciar SG 5% e reduzir insulina para 0,05 UI/kg/h Suspender BIC quando: pH >7,3 E HCO3 >18 E glicemia <200mg/dL Antes de suspender insulina EV: Aplicar 10 UI de insulina regular SC e aguardar 1-2h   INSULINOTERAPIA – BOLUS SUBCUTÂNEO Prescrição prática: Insulina Regular 100 UI/mL – 0,1 UI/kg (❓ UI), SC, dose única Reavaliar HGT em 2-4 horas Indicações: Hiperglicemia leve a moderada (250-400 mg/dL) sem CAD/EHH Ajuste glicêmico em pacientes diabéticos hospitalizados Apresentações: Insulina Regular 100 UI/mL – frasco 10mL ou caneta Via(s): 💉 SC Cuidados: Não usar em emergências hiperglicêmicas graves (preferir via EV) Escala de correção (sliding scale): 180-200 mg/dL: 2 UI 201-250 mg/dL: 4 UI 251-300 mg/dL: 6 UI 301-350 mg/dL: 8 UI 351-400 mg/dL: 10 UI 400 mg/dL: 12 UI e avisar médico Evitar aplicação em locais com má perfusão   REPOSIÇÃO DE POTÁSSIO Prescrição prática: Cloreto de Potássio (KCl) 19,1% 10 mL + SF 0,9% 1000 mL, EV, em 2 horas OU KCl 10% 20 mL + SF 0,9% 1000 mL, EV, em 2 horas Indicações: K sérico entre 3,3-5,0 mEq/L durante tratamento de CAD/EHH Prevenir hipocalemia induzida por insulinoterapia Apresentações: KCl 19,1% (2,56 mEq/mL) – ampola 10mL KCl 10% (1,34 mEq/mL) – ampola 10mL ou 20mL Via(s): 💉 EV (sempre diluído) Cuidados: NÃO iniciar insulina se K <3,3 mEq/L: Risco de arritmias fatais. Repor K primeiro NÃO repor K se K >5,0 mEq/L: Risco de hipercalemia Velocidade máxima: 10-20 mEq/h (em veia periférica), até 40 mEq/h (em veia central sob monitorização) Monitorar K sérico a cada 2-4h Fosfato de potássio: considerar se hipofosfatemia <1,0 mg/dL (20-30 mEq/L) Nunca fazer EV direto (push)   BICARBONATO DE SÓDIO Prescrição prática: Bicarbonato de Sódio 8,4% 50 mL + Água Destilada 500 mL, EV, em 4 horas (se pH 6,9-7,0) Bicarbonato de Sódio 8,4% 100 mL + Água Destilada 500 mL, EV, em 4 horas (se pH <6,9) Indicações: Acidose metabólica grave com pH <7,0 na CAD Apresentações: Bicarbonato de Sódio 8,4% (1 mEq/mL) – ampola 10mL ou frasco 250mL Via(s): 💉 EV Cuidados: Uso controverso: Não há benefício comprovado e pode aumentar risco de hipocalemia e edema cerebral Indicar apenas se pH <7,0 após hidratação adequada Repor potássio concomitantemente Monitorar gasometria arterial a cada 2 horas Suspender quando pH >7,0   ANTIEMÉTICO (se náuseas/vômitos) Prescrição prática: Bromoprida 10mg/2mL (5mg/mL) – 01 ampola (2mL) + 08mL de SF 0,9%, EV lento, em 2-3 minutos OU Bromoprida 10mg/2mL – 01 ampola (2mL), IM, dose única Alternativas: Ondansetrona 8mg/4mL (2mg/mL) – 01 ampola (4mL) + 16mL SF 0,9%, EV lento, em 2-3 minutos Metoclopramida 10mg/2mL (5mg/mL) – 01 ampola (2mL) + 08mL SF 0,9%, EV lento Indicações: Náuseas e vômitos na CAD Apresentações: Bromoprida 10mg – ampola 2mL Ondansetrona 8mg – ampola 4mL Metoclopramida 10mg – ampola 2mL Via(s): 💉 EV | 💉 IM Cuidados: Evitar metoclopramida em <18 anos (risco de distonia) Bromoprida: evitar se doença de Parkinson Ondansetrona: dose máxima 16mg/dia   🏠 PARA CASA IMPORTANTE: Alta domiciliar APENAS para hiperglicemia leve/moderada estabilizada. Casos de CAD/EHH necessitam internação. INSULINA NPH (se indicado ajuste ou início de insulinização) Prescrição: Insulina NPH 100 UI/mL – Aplicar ❓ UI, SC, pela manhã (ao acordar) e ❓ UI à noite (ao deitar), todos os dias. Uso contínuo. Indicações: DM tipo 1, DM tipo 2 descompensado refratário a hipoglicemiantes orais, gestantes Apresentações: Frasco-ampola 10mL (100 UI/mL), caneta 3mL Posologia: Dose inicial: 0,3-0,5 UI/kg/dia, dividida em 2/3 pela manhã e 1/3 à noite Ajustar conforme HGT capilar domiciliar Cuidados: Conservar em geladeira (2-8°C) Caneta em uso: até 28 dias em temperatura ambiente Rodízio de locais de aplicação Homogeneizar suavemente antes de aplicar (não agitar) Risco de hipoglicemia: orientar reconhecimento de sinais (tremor, sudorese, palpitação, confusão) Alternativa(s): Insulina Regular 100 UI/mL – aplicar antes das principais refeições Insulina Glargina 100 UI/mL – 1x/dia, horário fixo (análogo de longa duração)   HIPOGLICEMIANTE ORAL – METFORMINA Prescrição: Metformina 850mg – Tomar 01 comprimido, VO, 2 a 3 vezes ao dia (café, almoço e jantar). Uso contínuo. Indicações: DM tipo 2, primeira escolha para tratamento oral Apresentações: Comprimidos 500mg, 850mg, 1000mg Posologia: Dose inicial: 500-850mg 1-2x/dia Dose máxima: 2550mg/dia (dividida em 3 tomadas) Aumentar dose gradualmente para reduzir efeitos gastrointestinais Cuidados: Tomar às refeições Contraindicações: insuficiência renal (ClCr <30 mL/min), insuficiência hepática, IC descompensada Suspender 48h antes de exames com contraste iodado Efeitos adversos: diarreia, náuseas (melhoram com uso contínuo) Risco de acidose láctica (raro) Alternativa(s): Glibenclamida 5mg – 01 comprimido, VO, pela manhã, antes do café (sulfonilureia – maior risco de hipoglicemia) Glicazida 30mg – 01 comprimido, VO, 1-2x/dia, antes das refeições   HIPOGLICEMIANTE ORAL – SULFONILUREIA Prescrição: Glibenclamida 5mg – Tomar 01 comprimido, VO, pela manhã, 30 minutos antes do café. Uso contínuo. Indicações: DM tipo 2, quando metformina insuficiente ou contraindicada Apresentações: Comprimidos 5mg Posologia: Dose inicial: 2,5-5mg pela manhã Dose máxima: 20mg/dia (dividida em 2 tomadas) Cuidados: Tomar 30 minutos antes das refeições Alto risco de hipoglicemia: Especialmente em idosos e insuficiência renal Evitar em idosos >65 anos (preferir glicazida) Contraindicações: DM tipo 1, gestação, insuficiência renal grave Ganho de peso Alternativa(s): Glicazida 30mg MR – 01 comprimido, VO, 1x/dia (menor risco de hipoglicemia que glibenclamida)   👨🏻‍⚕️ Orientações ao paciente Sinais de alarme – retornar imediatamente: Glicemia persistentemente >400mg/dL mesmo tomando medicação Náuseas e vômitos persistentes Dor abdominal intensa Respiração rápida e profunda Confusão mental, sonolência excessiva Desidratação grave (boca seca, urina escura e pouco volume) Sinais de hipoglicemia: tremor, suor frio, palpitação, confusão mental, fome intensa Adesão ao tratamento: Tomar medicações regularmente nos horários prescritos Nunca interromper insulina ou hipoglicemiantes sem orientação médica Ter em casa fonte de glicose rápida (suco, mel, balas) para hipoglicemia Monitorização domiciliar: Medir glicemia capilar: jejum e 2h após refeições principais Meta glicêmica: jejum 80-130 mg/dL, pós-prandial <180 mg/dL Anotar valores em diário para mostrar no retorno Dieta: Evitar açúcar refinado, doces, refrigerantes, sucos industrializados Preferir carboidratos complexos (integrais), frutas com moderação Fracionar alimentação: 5-6 refeições pequenas/dia Aumentar consumo de fibras, vegetais Hidratação: mínimo 2 litros de água/dia Atividade física: Exercícios regulares: 150 min/semana (caminhada, natação) Monitorar glicemia antes e depois do exercício Evitar exercício se HGT >250mg/dL com cetose Retorno: Consulta com endocrinologista ou APS em até 7-15 dias para ajuste de tratamento Levar diário glicêmico, receitas e exames Educação: Aprender reconhecer sinais de hiper e hipoglicemia Cuidados com os pés (inspeção diária, calçados adequados) Vacinação em dia (influenza, pneumococo)   🔎 CID-10: E11.0 : Diabetes mellitus não-insulinodependente - com coma E11.1 : Diabetes mellitus não-insulinodependente - com cetoacidose E11.6 : Diabetes mellitus não-insulinodependente - com outras complicações especificadas E10.1 : Diabetes mellitus insulinodependente - com cetoacidose R73.9 : Hiperglicemia não especificada